O texto contido nesta página, foi transcrito do livro Pequena História da Civilização Pinhalense, escrito por Ubirajara Rocha em 1964

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  R E V O L U Ç Ã O  D E  T R I N T A  E  D O I S 
 
            Malgrado a República velha tivesse encerrado o seu fatigoso ciclo em 1930, resíduos fosseis e insepultos de demagogia e tirania, dela remanesceram e perduraram ameaçando seriamente a vida nacional. A arbitrariedade que é a injustiça dos chefes, como acentua QUEIROZ LIMA, campeava livremente, influindo maléficamente no curso da política brasileira. Por isso a memorável revolução política irrompida em São Paulo, no arrebol de 9 de julho de 1932, com auxilio do grande e nobre Estado de Mato Grosso, repercutiu profundamente em Pinhal, cuja pacifica e obreira população palpitou intensamente de vivo e incontível entusiasmo, cujo povo cívico pulsou de forma galvânica e apaixonada pelo completo êxito daquela gloriosa jornada.
            A Revolução de 32, tinha como escopo supremo e infrangível o retorno do país ao regime da lei, violada então, quotidianamente, com cinismo e despudor, pelos poderosos do dia. Era uma revolução nitidamente Constitucionalista, fadada portanto, a conquistar decisão unânime, admiração geral, simpatia universal.
            A emotiva alma pinhalense foi então posta em vibração pela vibração do corpo político nacional. Toda a cidade passou a viver hora fermentes, a atravessar dias enérgicos, a transpor semanas prenhes de entusiasmo, a percorrer meses heróicos e penetrados de plena exaltação nacionalista. Cessaram de prevalecer fins e interesses, naquela paisagem dramática e efervescente. O mais puro e genuíno patriotismo constituía a essência daquelas expansões de nervosidade incontida, daquelas bulhentas manifestações que rumorosamente movimentavam as ruas e as praças públicas da cidade. Não havia, ali, quem pudesse sopitar a sagrada irritação que o despotismo despertava, não havia ninguém que não experimentasse uma vontade decidida de verter o próprio sangue, combatendo cruentamente uma legalidade caduca, uma ordem de coisas irresponsável e caótica. Todos ali pareciam não se importar de perder a vida, hostilizando, intrepidamente, de armas na mão, uma política safada e que não deixava o governo administrar…
            A radiante e maravilhosa certeza da vitória de São Paulo penetrava as almas, como um éter sutil, naqueles dias incertos e abismais, naquelas semanas de lutas e sofrimentos, naqueles três meses de pânico e exaltação. Este ardente estado de espírito tanto inflamava os componentes do Partido Republicano como os filiados do Partido Democrático, que então representavam as duas facções políticas dominantes no Estado.
           
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            A Revolução Constitucionalista viera interromper, por assim dizer, os plácidos e fecundos dias de trabalho da laboriosa comunidade pinhalense. Os habitantes de Pinhal acompanhavam, através das estações de radio e pela imprensa diária, o dramático desenrolar da inolvidável campanha, fadada a alterar de fond em comble, predestinada a modificar de alto a baixo a estrutura e os destinos do país, homérico movimento que cavou penetrantes gilvazes na fisionomia política e social do Brasil, que imprimiu uma pulsação dinâmica e poderosamente nacionalista a energia passional do povo paulista.
            Mas, passemos aos fatos concretos.
            Logo a primeira hora da abertura das hostilidades guerreiras, o destacamento militar que se formara e organizara na localidade, comandada pelo Tenente MARIO BUENO, recebera ordens de partir para São Paulo, sendo então alvo de carinhosa manifestação popular, durante a qual uma numerosa multidão fremiu ao civismo sob a ação dos verbos calorosos do Dr. ABÍLIO PINHEIRO, do Dr. BENEDITO PEREIRA DE ARAÚJO e do Dr. JOSÉ DE MORAES LEME.
            A ordem e a tranqüilidade públicas foram garantidas e asseguradas pela atividade conjunta e meticulosa das autoridades representativas do município, a saber: Sr. VICENTE DE FREITAS GUIMARÃES, Prefeito Municipal, e Dr. CORNÉLIO NOGUEIRA FRANÇA, delegado de policia.
            Em 11 de julho constituiu-se o comitê revolucionário do 7° Distrito, sendo composto dos seguintes cavalheiros: Dr. CAROLINO DA MOTA E SILVA, FRANCISCO SPINOLA DIAS, Dr. VICENTE PINHEIRO, Dr. TOMÁS LESSA, Cel. FRANCISCO VIEIRA e Dr. MANOEL CARLOS DE SIQUEIRA.
            No dia 13 do mesmo mês, o Governo do Estado comissionou o Major FRANCISCO GARCIA para organizar um batalhão patriótico, o qual ficaria sediado em o Grupo Escolar Dr. Almeida Vergueiro, incumbência que foi posta em execução logo após a chegada em Pinhal daquele distinto e brilhoso oficial do Exército Nacional. Na tarde ainda do mesmo dia, o povo assistiu a promoção de um grande comício cívico, cujo escopo primacial fora o de dar inicio ao alistamento militar.
            O Instituto PASCOAL BRANDO (hoje inexistente), o qual era formado de distintos médicos pinhalenses, ofereceu seus importantes serviços técnicos ao comando do setor revolucionário, colaborando eficazmente para a vitória da causa comum, que, como já vimos, visava reintegrar a nação no regime da lei.
            Enfrentando-se gravemente, o major FRANCISCO GARCIA, foi forçado a abandonar o comando do Batalhão Patriótico de Pinhal, galhardo posto que de direito havia assumido logo que abicara a cidade. Como resultado desta imprevista circunstancia, teve aquele valoroso militar necessidade de regressar a Capital do Estado, ocupando-lhe a posição o capitão VICENTE GARCIA, correto e bravo oficial que logo depois fora igualmente substituído pelo tenente-coronel JOSÉ DIAS DE CAMPOS, sendo também este, sucedido pelo tenente-coronel DAVI DA SILVA COSTA.
            Os dias passavam, frementes e apaixonados. Em 16 de julho, o Hospital Francisco Rosas, pôs suas excelentes dependências e seus valiosos recursos técnicos a disposição das valorosas tropas de Piratininga. Sob o patrocínio da Inspetoria Regional de Ensino, efetuou-se concorrida reunião no edifício da Prefeitura Municipal, ocasião em que foi fundada a Associação de Assistência dos Soldados Constitucionalistas, cuja diretoria foi composta dos seguintes  e ilustres membros: Dona ANA LEITE VIEIRA, presidente; Dona BERTA SALLES VILAS BOAS, vice-presidente; Dona HELENA MONICI VERGUEIRO, tesoureira; Dona JOSEFINA MOTA e Dona LINA VERGUEIRO, secretarias, todas elas damas da mais alta sociedade pinhalense.
            No dia subseqüente, 17 de julho, transportada em diversos auto-caminhões, a primeira leva de valentes voluntários pinhalenses, devidamente adestrados e equipados, rumou em direção ao vizinho Estado de Minas Gerais, carregando para as Alterosas a comovida lembrança da emocionante manifestação de despedida que lhe fora prestada por compacta massa popular. Esse audaz batalhão de combatentes civis passou pelas cidades mineiras de Jacutinga e Ouro Fino, onde não encontrou resistência bélica nem oposição de outra natureza, apenas suspendendo sua marcha vitoriosa em virtude de rude barragem militar que lhe foi oferecida pelas tropas federais acantonadas em Pouso Alegre. Contudo, o heroísmo dos bravos voluntários pinhalenses jamais poderá ser desmentido ou desmerecido por nenhum historiador honesto e atento ao desenrolar dos acontecimentos.
            Toda a população de Pinhal, unidas em todas as suas classes e camadas sociais, ufanava-se em prodigalizar auxílios ao movimento constitucionalista. De todos os pontos do município, donativos de toda a espécie e valor eram cotidianamente enviados a titulo de colaboração para incremento e continuação da cruzada sagrada e gloriosa. Dentre esses inúmeros, preciosos e espontâneos auxílios, um deve ser citado, com destaque e relevo especiais; trata-se do gesto, sem dúvida magnânimo, impregnado de fidalguia e generosidade, emanado do Sr. MANOEL VASCONCELOS MARTINS, opulento fazendeiro e capitalista do município, pondo a disposição das hostes paulistas todo o rebanho de gado existente em sua grande propriedade agrícola. Esse gesto, por certo, magnífico pelo seu desprendimento, profundamente sedutor pelo seu desinteresse, vibrará e repercutirá pela posteridade afora. Autentico beau geste, daquele distinto e finíssimo cavaleiro, que, infortunadamente, a ceifeira cruel já arrebatou do seio dos vivos.
            No dia 18 de julho, procedeu-se a instalação da Delegacia Técnica, ato que se realizou no Paço da Prefeitura Municipal. Referida Delegacia foi chefiada pelo bravo major Dr. ASDRÚBAL LACERDA, brilhantemente assessorado pelos briosos capitães RODRIGO CONCEIÇÃO Dr. AUGUSTO A. BOTELHO.
            A Comissão M.M.D.C. local (iniciais que, como se sabe, significam os nomes de MIRAGAIA, MARTINS, DRAUSIO e CAMARGO, jovens estudantes paulistas que, juntamente com ALVARENGA, perderam as viçosas vidas na Capital do Estado, na tarde histórica de 23 de maio de 1932), teve sua organização proclamada em 24 de julho, compondo-se dos seguintes e prestantes cidadãos: GENTIL RIBEIRO DE OLIVEIRA MOTA e JOAQUIM LEITE JUNIOR. Na mesma ocasião a chefia do alistamento civil, destinado a reforçar cada vez mais as aguerridas tropas paulistas, foi confiada a segura orientação do ilustre professor JOSÉ FLORIANO DE AZEVEDO MARQUES.
            O luzido corpo docente do Grupo Escolar Dr. Almeida Vergueiro, levou a feito uma frutuosa reunião, na qual o então diretor daquele modelar estabelecimento de ensino primário, Professor JOSÉ FLORIANO DE AZEVEDO MARQUES, propôs e foi aceito pelos presentes que, todos os mestres daquela casa de instituição pública, durante o espaço de seis meses, abrissem mão de um dia de vencimentos, em prol e em beneficio da gloriosa causa por São Paulo Unido.
            A Inspetoria Geral do Serviço Hospitalar da zona Campinas-Mococa, criou em Pinhal um departamento de saúde, o qual ficou assim constituído: Dr. JOSÉ RENATO D´AGOSTINI, médico-chefe; Dr. PASCHOAL BRANDO e Dr. NESTOR VERGUEIRO, médicos-auxiliares; acadêmicos de medicina (hoje médicos) ARMANDO C. F. MONDADORI e WALDOMIRO FERREIRA NEVES, enfermeiros; ALÉXIS NOYRE, farmacêutico; MAURÍLIO VERGUEIRO PORTO, odontologista. A este departamento de saúde ofereceram, de motu próprio, os seus gratuitos serviços profissionais, mais os seguintes e brilhantes clínicos locais; Dr. AGENOR MONDADORI, Dr. FRANCISCO BELIZE, Dr. PAULINO DE FILIPPI e Dr. HERCULES MONDADORI.
            Assim expirou aquele memorável e emocionante mês de julho de 1932, visto através do relato de seus acontecimentos principais e de maior relevo histórico. No mês seguinte, em 4 de agosto, começa a circular o jornal intitulado de 9 de julho, órgão oficial do M.M.D.C. local e cuja fundação se deve a GENTIL RIBEIRO DE OLIVEIRA MOTA, LAURINDO MARQUES JUNIOR, diretor proprietário de A Folha local, e Dr. FRANCISCO ÁLVARES FLORENCE. Jornal esse evidentemente de circunstancia e, portanto, já desaparecido da circulação.
            Em o dia 5 de agosto, desembarca em Pinhal o bem equipado e destemeroso 3° Batalhão do Regime de 9 de Julho, fazendo-o sob o valoroso comando do capitão ESDRAS, do Exército Brasileiro, aquartelando-se logo de chegada nas dependências do Cine Teatro Avenida, então a maior casa de espetáculos públicos da cidade, e no espaçoso armazém de café pertencente Ao Sr.  JOÃO ANTUNES.
            Em 8 de agosto, por esponta e aplaudida iniciativa da mesa administrativa e do seleto corpo clínico do Hospital Francisco Rosas, são lançados os fundamentos da Cruz Branca.
            Em data de 14 do mesmo mês de agosto, o Dr. JOAQUIM PINTO DE CASTRO, substitui o delegado de policia local, Dr. CORNÉLIO NOGUEIRA FRANÇA, em virtude da remoção deste para desempenhar as funções de Delegado-Adjunto a Delegacia Regional de Policia de Itapetininga. Ainda na mesma data, a agencia local do Banco Comercial do Estado de São Paulo, sob a gerencia do saudoso EDUARDO VIEIRA, encetou a vitoriosa campanha do ouro Pró São Paulo fiant exímia.
            O tempo corria, repleto de angustias e surpresas. Em o dia 21 de agosto, inaugurou-se no prédio Trianon, situado a Praça da Independência ou Largo da Matriz, a Casa do Soldado, cuja diretoria era composta de elementos do escrol feminino da sociedade pinhalense: Dona ELVIRA FLORENCE, presidente; Dona ANÁLIA P. VERGUEIRO, vice-presidente; Dona LÍDIA BALDASSARI LEITE, tesoureira; Senhorita LIGIA VERGUEIRO LEITE e Dona JOAQUINA V. COELHO, secretárias; Dona CECÍLIA PEREIRA ALCÂNTARA, intendente; e Dona ELVIRA RAIANNI, sub-intendente.
            Ainda nesse mesmo mês de agosto, foi promovida a abertura da lista Pró Capacetes de Aço, a qual contou desde logo com forte numero de subscritores, ao preço de duzentos mil réis por unidade.
            Igualmente considerável foi a falange de pinhalenses que se incorporou sem vacilar as belicosas fileiras do exército da lei como eram chamadas as tropas constitucionalistas; inúmeros filhos de Pinhal pelejaram com denodo em diversas frentes de combate, espalhadas pelo interior e pelas fronteiras territoriais do Estado, alguns deles tombando honrosamente e com brava em defesa do mais límpido idealismo jamais vicejado em terras de Piratininga e quiçá do Brasil. Os heróis pinhalenses que morreram em holocausto a São Paulo, os bravos filhos de Pinhal que sucumbiram no campo da honra, são e sempre serão evocados com saudade indelével; seus nomes ainda brilham na comovida e afetuosa recordação popular, cobertos por uma aureola cintilante e imorredoura de bravura e heroísmo. ÂNGELO GUERINO, JOÃO BUENO DOS REIS, JOSÉ TAVARES MENEZES e AMÉRICO BRIZA, são os nomes destes destemerosos moços, destes paulistas de verdade, destes magníficos soldados que, acima de tudo, antes de tudo, eram homens, não fardas… Alistaram-se para lutar e combater por uma causa, não simplesmente para desfilar garbosamente… Para eles, sem dúvida, quem dera tudo, sem dar a vida, não dera nada, como acentuava IBSEN: eles confirmaram em toda a sua plenitude e beleza as palavras sublimes de RUY BARBOSA, quando afirmara que o verdadeiro patriotismo não consiste em matar mas em morrer pela Pátria.!
 
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            Vimos que o mês de Julho passou, passou o mês de agosto. Logo mais, em setembro, contemplamos um triste espetáculo, a cidade foi militarmente ocupada, após ter resistido e lutado bravamente em suas divisas territoriais, ou melhor, nos setores de combate da Ponte Preta, do Jardim, do Albertão, do Eleutério, além de outros fronts.
            A respeito do outro partido político, então criado e conhecido sob a denominação de Federação dos Voluntários, liderado na Capital do Estado, por JOSÉ DE ALMEIDA CAMARGO, diremos apenas que sua duração temporal foi efêmera, fora e dentro de Pinhal. Foi precário e passageiro o relevo ou prestigio desse Partido, malgrado ter tido força e apresentar a sedução necessária para despertar a sagacidade das gerações estudiosas, que hoje se inclinam para estuda-lo e compreende-lo de forma ampla e aprofundada.
            Por fim, encerrado o capitulo glorioso da Revolução de 1932, com o insofismável Triunfo Moral da nobilíssima e altiva causa bandeirante, Pinhal e seu generoso povo souberam receber, de pé e com varonil firmeza de ânimo, com superior aceitação de espírito os resultados trazidos, na undécima hora, ao pujante Estado de São Paulo pela sua derrota material, pela vitória federal tão custosamente alcançada.
            Todavia, quem vencera, em definitivo, fora a brasilidade…

® Ricardo Mateus Olivi - Nov/2007