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R E V O L U Ç Ã O D E T R I N T A
E D O I S
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Malgrado a República velha tivesse encerrado o seu fatigoso ciclo em
1930, resíduos fosseis e insepultos de demagogia e tirania, dela
remanesceram e perduraram ameaçando seriamente a vida nacional. A
arbitrariedade que é a injustiça dos chefes, como acentua QUEIROZ LIMA,
campeava livremente, influindo maléficamente no curso da política
brasileira. Por isso a memorável revolução política irrompida em São
Paulo, no arrebol de 9 de julho de 1932, com auxilio do grande e nobre
Estado de Mato Grosso, repercutiu profundamente em Pinhal, cuja pacifica e
obreira população palpitou intensamente de vivo e incontível entusiasmo,
cujo povo cívico pulsou de forma galvânica e apaixonada pelo completo êxito
daquela gloriosa jornada.
A Revolução de 32, tinha como escopo supremo e infrangível o
retorno do país ao regime da lei, violada então, quotidianamente, com
cinismo e despudor, pelos poderosos do dia. Era uma revolução nitidamente
Constitucionalista, fadada portanto, a conquistar decisão unânime, admiração
geral, simpatia universal.
A emotiva alma pinhalense foi então posta em vibração pela vibração
do corpo político nacional. Toda a cidade passou a viver hora fermentes, a
atravessar dias enérgicos, a transpor semanas prenhes de entusiasmo, a
percorrer meses heróicos e penetrados de plena exaltação nacionalista.
Cessaram de prevalecer fins e interesses, naquela paisagem dramática e
efervescente. O mais puro e genuíno patriotismo constituía a essência
daquelas expansões de nervosidade incontida, daquelas bulhentas manifestações
que rumorosamente movimentavam as ruas e as praças públicas da cidade. Não
havia, ali, quem pudesse sopitar a sagrada irritação que o despotismo
despertava, não havia ninguém que não experimentasse uma vontade decidida
de verter o próprio sangue, combatendo cruentamente uma legalidade caduca,
uma ordem de coisas irresponsável e caótica. Todos ali pareciam não se
importar de perder a vida, hostilizando, intrepidamente, de armas na mão,
uma política safada e que não deixava o governo administrar…
A radiante e maravilhosa certeza da vitória de São Paulo penetrava
as almas, como um éter sutil, naqueles dias incertos e abismais, naquelas
semanas de lutas e sofrimentos, naqueles três meses de pânico e exaltação.
Este ardente estado de espírito tanto inflamava os componentes do Partido
Republicano como os filiados do Partido Democrático, que então
representavam as duas facções políticas dominantes no Estado.
* * *
A Revolução Constitucionalista viera interromper, por assim dizer,
os plácidos e fecundos dias de trabalho da laboriosa comunidade pinhalense.
Os habitantes de Pinhal acompanhavam, através das estações de radio e
pela imprensa diária, o dramático desenrolar da inolvidável campanha,
fadada a alterar de fond em comble, predestinada a modificar de alto
a baixo a estrutura e os destinos do país, homérico movimento que cavou
penetrantes gilvazes na fisionomia política e social do Brasil, que
imprimiu uma pulsação dinâmica e poderosamente nacionalista a energia
passional do povo paulista.
Mas, passemos aos fatos concretos.
Logo a primeira hora da abertura das hostilidades guerreiras, o
destacamento militar que se formara e organizara na localidade, comandada
pelo Tenente MARIO BUENO, recebera ordens de partir para São Paulo, sendo
então alvo de carinhosa manifestação popular, durante a qual uma numerosa
multidão fremiu ao civismo sob a ação dos verbos calorosos do Dr. ABÍLIO
PINHEIRO, do Dr. BENEDITO PEREIRA DE ARAÚJO e do Dr. JOSÉ DE MORAES LEME.
A ordem e a tranqüilidade públicas foram garantidas e asseguradas
pela atividade conjunta e meticulosa das autoridades representativas do
município, a saber: Sr. VICENTE DE FREITAS GUIMARÃES, Prefeito Municipal,
e Dr. CORNÉLIO NOGUEIRA FRANÇA, delegado de policia.
Em 11 de julho constituiu-se o comitê revolucionário do 7°
Distrito, sendo composto dos seguintes cavalheiros: Dr. CAROLINO DA MOTA E
SILVA, FRANCISCO SPINOLA DIAS, Dr. VICENTE PINHEIRO, Dr. TOMÁS LESSA, Cel.
FRANCISCO VIEIRA e Dr. MANOEL CARLOS DE SIQUEIRA.
No dia 13 do mesmo mês, o Governo do Estado comissionou o Major
FRANCISCO GARCIA para organizar um batalhão patriótico, o qual ficaria
sediado em o Grupo Escolar Dr. Almeida Vergueiro, incumbência que foi posta
em execução logo após a chegada em Pinhal daquele distinto e brilhoso
oficial do Exército Nacional. Na tarde ainda do mesmo dia, o povo assistiu
a promoção de um grande comício cívico, cujo escopo primacial fora o de
dar inicio ao alistamento militar.
O Instituto PASCOAL BRANDO (hoje inexistente), o qual era formado de
distintos médicos pinhalenses, ofereceu seus importantes serviços técnicos
ao comando do setor revolucionário, colaborando eficazmente para a vitória
da causa comum, que, como já vimos, visava reintegrar a nação no regime
da lei.
Enfrentando-se gravemente, o major FRANCISCO GARCIA, foi forçado a
abandonar o comando do Batalhão Patriótico de Pinhal, galhardo posto que
de direito havia assumido logo que abicara a cidade. Como resultado desta
imprevista circunstancia, teve aquele valoroso militar necessidade de
regressar a Capital do Estado, ocupando-lhe a posição o capitão VICENTE
GARCIA, correto e bravo oficial que logo depois fora igualmente substituído
pelo tenente-coronel JOSÉ DIAS DE CAMPOS, sendo também este, sucedido pelo
tenente-coronel DAVI DA SILVA COSTA.
Os dias passavam, frementes e apaixonados. Em 16 de julho, o Hospital
Francisco Rosas, pôs suas excelentes dependências e seus valiosos recursos
técnicos a disposição das valorosas tropas de Piratininga. Sob o patrocínio
da Inspetoria Regional de Ensino, efetuou-se concorrida reunião no edifício
da Prefeitura Municipal, ocasião em que foi fundada a Associação de
Assistência dos Soldados Constitucionalistas, cuja diretoria foi composta
dos seguintes e ilustres
membros: Dona ANA LEITE VIEIRA, presidente; Dona BERTA SALLES VILAS BOAS,
vice-presidente; Dona HELENA MONICI VERGUEIRO, tesoureira; Dona JOSEFINA
MOTA e Dona LINA VERGUEIRO, secretarias, todas elas damas da mais alta
sociedade pinhalense.
No dia subseqüente, 17 de julho, transportada em diversos
auto-caminhões, a primeira leva de valentes voluntários pinhalenses,
devidamente adestrados e equipados, rumou em direção ao vizinho Estado de
Minas Gerais, carregando para as Alterosas a comovida lembrança da
emocionante manifestação de despedida que lhe fora prestada por compacta
massa popular. Esse audaz batalhão de combatentes civis passou pelas
cidades mineiras de Jacutinga e Ouro Fino, onde não encontrou resistência
bélica nem oposição de outra natureza, apenas suspendendo sua marcha
vitoriosa em virtude de rude barragem militar que lhe foi oferecida pelas
tropas federais acantonadas em Pouso Alegre. Contudo, o heroísmo dos bravos
voluntários pinhalenses jamais poderá ser desmentido ou desmerecido por
nenhum historiador honesto e atento ao desenrolar dos acontecimentos.
Toda a população de Pinhal, unidas em todas as suas classes e
camadas sociais, ufanava-se em prodigalizar auxílios ao movimento
constitucionalista. De todos os pontos do município, donativos de toda a
espécie e valor eram cotidianamente enviados a titulo de colaboração para
incremento e continuação da cruzada sagrada e gloriosa. Dentre esses inúmeros,
preciosos e espontâneos auxílios, um deve ser citado, com destaque e
relevo especiais; trata-se do gesto, sem dúvida magnânimo, impregnado de
fidalguia e generosidade, emanado do Sr. MANOEL VASCONCELOS MARTINS,
opulento fazendeiro e capitalista do município, pondo a disposição das
hostes paulistas todo o rebanho de gado existente em sua grande propriedade
agrícola. Esse gesto, por certo, magnífico pelo seu desprendimento,
profundamente sedutor pelo seu desinteresse, vibrará e repercutirá pela
posteridade afora. Autentico beau geste, daquele distinto e finíssimo
cavaleiro, que, infortunadamente, a ceifeira cruel já arrebatou do seio dos
vivos.
No dia 18 de julho, procedeu-se a instalação da Delegacia Técnica,
ato que se realizou no Paço da Prefeitura Municipal. Referida Delegacia foi
chefiada pelo bravo major Dr. ASDRÚBAL LACERDA, brilhantemente assessorado
pelos briosos capitães RODRIGO CONCEIÇÃO Dr. AUGUSTO A. BOTELHO.
A Comissão M.M.D.C. local (iniciais que, como se sabe, significam os
nomes de MIRAGAIA, MARTINS, DRAUSIO e CAMARGO, jovens estudantes paulistas
que, juntamente com ALVARENGA, perderam as viçosas vidas na Capital do
Estado, na tarde histórica de 23 de maio de 1932), teve sua organização
proclamada em 24 de julho, compondo-se dos seguintes e prestantes cidadãos:
GENTIL RIBEIRO DE OLIVEIRA MOTA e JOAQUIM LEITE JUNIOR. Na mesma ocasião a
chefia do alistamento civil, destinado a reforçar cada vez mais as
aguerridas tropas paulistas, foi confiada a segura orientação do ilustre
professor JOSÉ FLORIANO DE AZEVEDO MARQUES.
O luzido corpo docente do Grupo Escolar Dr. Almeida Vergueiro, levou
a feito uma frutuosa reunião, na qual o então diretor daquele modelar
estabelecimento de ensino primário, Professor JOSÉ FLORIANO DE AZEVEDO
MARQUES, propôs e foi aceito pelos presentes que, todos os mestres daquela
casa de instituição pública, durante o espaço de seis meses, abrissem mão
de um dia de vencimentos, em prol e em beneficio da gloriosa causa por São
Paulo Unido.
A Inspetoria Geral do Serviço Hospitalar da zona Campinas-Mococa,
criou em Pinhal um departamento de saúde, o qual ficou assim constituído:
Dr. JOSÉ RENATO D´AGOSTINI, médico-chefe; Dr. PASCHOAL BRANDO e Dr.
NESTOR VERGUEIRO, médicos-auxiliares; acadêmicos de medicina (hoje médicos)
ARMANDO C. F. MONDADORI e WALDOMIRO FERREIRA NEVES, enfermeiros; ALÉXIS
NOYRE, farmacêutico; MAURÍLIO VERGUEIRO PORTO, odontologista. A este
departamento de saúde ofereceram, de motu próprio, os seus gratuitos serviços
profissionais, mais os seguintes e brilhantes clínicos locais; Dr. AGENOR
MONDADORI, Dr. FRANCISCO BELIZE, Dr. PAULINO DE FILIPPI e Dr. HERCULES
MONDADORI.
Assim expirou aquele memorável e emocionante mês de julho de 1932,
visto através do relato de seus acontecimentos principais e de maior relevo
histórico. No mês seguinte, em 4 de agosto, começa a circular o jornal
intitulado de 9 de julho, órgão oficial do M.M.D.C. local e cuja fundação
se deve a GENTIL RIBEIRO DE OLIVEIRA MOTA, LAURINDO MARQUES JUNIOR, diretor
proprietário de A Folha local, e Dr. FRANCISCO ÁLVARES FLORENCE. Jornal
esse evidentemente de circunstancia e, portanto, já desaparecido da circulação.
Em o dia 5 de agosto, desembarca em Pinhal o bem equipado e
destemeroso 3° Batalhão do Regime de 9 de Julho, fazendo-o sob o valoroso
comando do capitão ESDRAS, do Exército Brasileiro, aquartelando-se logo de
chegada nas dependências do Cine Teatro Avenida, então a maior casa de
espetáculos públicos da cidade, e no espaçoso armazém de café
pertencente Ao Sr. JOÃO
ANTUNES.
Em 8 de agosto, por esponta e aplaudida iniciativa da mesa
administrativa e do seleto corpo clínico do Hospital Francisco Rosas, são
lançados os fundamentos da Cruz Branca.
Em data de 14 do mesmo mês de agosto, o Dr. JOAQUIM PINTO DE CASTRO,
substitui o delegado de policia local, Dr. CORNÉLIO NOGUEIRA FRANÇA, em
virtude da remoção deste para desempenhar as funções de Delegado-Adjunto
a Delegacia Regional de Policia de Itapetininga. Ainda na mesma data, a
agencia local do Banco Comercial do Estado de São Paulo, sob a gerencia do
saudoso EDUARDO VIEIRA, encetou a vitoriosa campanha do ouro Pró São
Paulo fiant exímia.
O tempo corria, repleto de angustias e surpresas. Em o dia 21 de
agosto, inaugurou-se no prédio Trianon, situado a Praça da Independência
ou Largo da Matriz, a Casa do Soldado, cuja diretoria era composta de
elementos do escrol feminino da sociedade pinhalense: Dona ELVIRA FLORENCE,
presidente; Dona ANÁLIA P. VERGUEIRO, vice-presidente; Dona LÍDIA
BALDASSARI LEITE, tesoureira; Senhorita LIGIA VERGUEIRO LEITE e Dona
JOAQUINA V. COELHO, secretárias; Dona CECÍLIA PEREIRA ALCÂNTARA,
intendente; e Dona ELVIRA RAIANNI, sub-intendente.
Ainda nesse mesmo mês de agosto, foi promovida a abertura da lista
Pró Capacetes de Aço, a qual contou desde logo com forte numero de
subscritores, ao preço de duzentos mil réis por unidade.
Igualmente considerável foi a falange de pinhalenses que se
incorporou sem vacilar as belicosas fileiras do exército da lei como eram
chamadas as tropas constitucionalistas; inúmeros filhos de Pinhal pelejaram
com denodo em diversas frentes de combate, espalhadas pelo interior e pelas
fronteiras territoriais do Estado, alguns deles tombando honrosamente e com
brava em defesa do mais límpido idealismo jamais vicejado em terras de
Piratininga e quiçá do Brasil. Os heróis pinhalenses que morreram em
holocausto a São Paulo, os bravos filhos de Pinhal que sucumbiram no campo
da honra, são e sempre serão evocados com saudade indelével; seus nomes
ainda brilham na comovida e afetuosa recordação popular, cobertos por uma
aureola cintilante e imorredoura de bravura e heroísmo. ÂNGELO GUERINO, JOÃO
BUENO DOS REIS, JOSÉ TAVARES MENEZES e AMÉRICO BRIZA, são os nomes destes
destemerosos moços, destes paulistas de verdade, destes magníficos
soldados que, acima de tudo, antes de tudo, eram homens, não fardas…
Alistaram-se para lutar e combater por uma causa, não simplesmente para
desfilar garbosamente… Para eles, sem dúvida, quem dera tudo, sem dar a
vida, não dera nada, como acentuava IBSEN: eles confirmaram em toda a sua
plenitude e beleza as palavras sublimes de RUY BARBOSA, quando afirmara que
o verdadeiro patriotismo não consiste em matar mas em morrer pela Pátria.!
* * *
Vimos que o mês de Julho passou, passou o mês de agosto. Logo mais,
em setembro, contemplamos um triste espetáculo, a cidade foi militarmente
ocupada, após ter resistido e lutado bravamente em suas divisas
territoriais, ou melhor, nos setores de combate da Ponte Preta, do Jardim,
do Albertão, do Eleutério, além de outros fronts.
A respeito do outro partido político, então criado e conhecido sob
a denominação de Federação dos Voluntários, liderado na Capital do
Estado, por JOSÉ DE ALMEIDA CAMARGO, diremos apenas que sua duração
temporal foi efêmera, fora e dentro de Pinhal. Foi precário e passageiro o
relevo ou prestigio desse Partido, malgrado ter tido força e apresentar a
sedução necessária para despertar a sagacidade das gerações estudiosas,
que hoje se inclinam para estuda-lo e compreende-lo de forma ampla e
aprofundada.
Por fim, encerrado o capitulo glorioso da Revolução de 1932, com o
insofismável Triunfo Moral da nobilíssima e altiva causa bandeirante,
Pinhal e seu generoso povo souberam receber, de pé e com varonil firmeza de
ânimo, com superior aceitação de espírito os resultados trazidos, na undécima
hora, ao pujante Estado de São Paulo pela sua derrota material, pela vitória
federal tão custosamente alcançada.
Todavia, quem vencera, em definitivo, fora a brasilidade…
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