O texto contido nesta página, foi transcrito do livro Pequena História da Civilização Pinhalense, escrito por Ubirajara Rocha em 1964

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—  R E V O L U Ç Õ E S  —  
 
            Não estudaremos aqui, por não ser lugar próprio, as causas políticas, as causas políticas, as determinantes históricas, as gênesis psicológicas, ou, dito em outras palavras, não apresentaremos aqui a sociologia das revoluções, ao focalizarmos as Revoluções de 1924, 1930 e 1932, analisadas em sua repercussões e ressonâncias em Pinhal. Exporemos apenas, em pinceladas abreviadas e suscintas, algumas noções preambulares e indispensáveis a perfeita compreensão do fenômeno revolucionário, equacionando-o abstratamente, tentando esboçar vestibularmente o que se poderá denominar de filosofia da revolução.
            Diremos, de começo, que toda a revolução traz uma nova concepção da vida, uma organização de existência, não sendo portanto portadora da decadência e da morte, como assertoa FROBENIUS, renomado criador da doutrina das culturas orgânicas, ou como pontificam SPENGLER e os chamados filósofos da cultura. A missão capital de toda revolução é a de dar vida e renovar a vida, não a de trazer a dissolução, a estagnação, o desequilíbrio e a instabilidade. A revolução não é, acentua BERDIAEFF, uma decomposição progressiva da sociedade e da velha cultura. E se a revolução traz a morte nós vemos que, tanto no plano biológico como na esfera da metafísica, a morte não significa desaparecimento, mas transformação.
            A revolução é um fenômeno histórico inevitável e necessário. Ela pode ser considerada um fenômeno cíclico, interferindo periodicamente no curso das historias dos povos e das nações. A revolução é, portanto, um fenômeno típico da dinâmica histórica. Pesquisada em si mesma, vista através das luzes da antologia, examinada com a visão da essência, ela não se apresenta como um mal nem como um bem, exatamente como os movimentos e as forças da natureza, cumpre portanto refutar JOSEPH DE MAISTRE, chefe da escola teocrática e profundo conhecedor e analista do fenômeno revolucionário, celebrado autor das Considerações sobre a França, quando assegura que, por meio das revoluções, Deus castiga os homens e os povos, porquanto a revolução é obra satânica e providencial.
            A idéia é seguramente o elemento demoníaco da revolução. A idéia é a ferramenta revolucionaria por excelência. Já vimos fartamente, em paginas precedentes, a elevada posição que a idéia ocupa na produção ou no dinamismo do evento revolucionário. Já mostramos, e não repetiremos mais, por não querermos girar como uma turbina em torno do mesmo assunto, como a idéia trabalha o espírito das massas, como a idéia abre caminho na multidão, impressionando, conquistando e até fanatizando o povo. Diremos somente, para remate do parágrafo, que a revolução é a transformação da idéia em fato: idéia, ou fato abstrato, e fato, ou idéia concreta.
            A revolução exprime relações estabelecidas entre o homem e a sociedade, entre o povo e o governo, como já foi experimentalmente observado no longo e acidentado curso da historia. Seu escopo supremo consiste amiúde  em restabelecer o equilibro perdido, atuando de fora para dentro e obrando sob impulsos puramente ideais. As circunstancias, o chamado concurso de circunstancias, via de regra, são os veículos que fazem explodir (retardando ou apressando) o fato revolucionário.
            Uma revolução é um organismo que se transforma de dia para dia, já que a sua característica principal é ser precisamente uma aceleração radical no dinamismo normal da evolução histórica. A revolução não é o contrario da evolução. É apenas uma intensificação por vezes monstruosas, como são no inicio de todas as revoluções do processo normal da evolução histórica. Tal é o ensinamento de TRISTÃO DE ATHAYDE, em Democracia e Demofilia, in Diário de São Paulo, ed. de 26 de junho de 1945.
            Todas as revoluções mais importantes da historia apresentam estes característicos primaciais, carregam estes impositivos primordiais. Eis porque, todas elas, são essencialmente idênticas na estrutura, nos métodos e processos, diferindo apenas nas finalidades, nas metas ou objetivos. Vale dizer, todas elas são filhas gêmeas do mesmo pai: a idéia evolucionando e se convertendo em fato, eis aí, simbolizando o que estamos afirmando, tanto a Reforma como o Humanismo, tanto a Revolução Francesa como a Revolução Russa, ou ainda a Revolução Americana, as quais representam a harmonização de dois mundos, isto é, restabelecimento de um equilíbrio que se rompera…
            As sociedades, diz PLÍNIO SALGADO, como tudo que obedece as leis do movimento, aspiram ao repouso, considerado este como uma harmonia de movimentos. O repouso não pode ser a imobilidade, mas o equilíbrio. Tudo tende ao equilíbrio, porque o equilíbrio é a integridade, é a forma do repouso no movimento. (Cfr. Psicologia da Revolução, 3ª ed., Rio, 1937).
            Toda revolução realiza-se no espaço e no tempo. No espaço, com os movimentos nacionalistas da Irlanda, do Egito e da Índia; no tempo, como as Revoluções Francesa e Russa. Ela pode, finalmente, articular-se e movimentar-se simultaneamente no espaço e no tempo, como a que gerou a independência dos povos americanos.
                        Toda revolução, pode ser objetiva ou subjetiva. São exemplos de revolução subjetiva o Cristianismo, a Reforma, a Renascença, a Enciclopédia; tais revoluções são frutos de profundas fermentações ideológicas, resultam de elaborações ideais da razão discursiva mediata e revolucionaria, irritando ou excitando o estado emotivo das massas populares.
            Constituem modelos de revolução objetiva as revoluções sul americanas, entre as quais inclui a Revolução Brasileira de 1930; tais revoluções se distinguem das outras principalmente porque, nelas, ninguém sabe exatamente contra o que se insurgem: si a derribada de uma ordem velha, si a conservação ou a permanência da mesma ordem caduca, mantida sob feições diferentes. São Revoluções, ainda, nas quais aparece a marca sinistra do caudilhismo político latino-americano, que se caracteriza pela cabal ausência de motivos claros, de motivos fixos, determinados, positivos. O caudilho é um homem de impulsos primitivos, é uma criatura aventureira, indisciplinada e instintiva, agindo num cenário de surpresas permanentes, atuando, no dizer de KEYSERLING, numa atmosfera agressiva, hostil e perpetuamente modificada como nos dias dos Gênesis. Finalmente, o caudilho é aquela poderosa associação de contraste, de que nos fala CARLYLE.
            Convém salientar, ainda, que a revolução constitui um direito do povo e do próprio Governo, isto é: toda revolução pode ser feita de baixo para cima e de cima para baixo. Tanto faz o povo, como faz o Governo. Esta ultima modalidade revolucionaria é também chamada de golpe de Estado, (revolução branca), como o de 10 de novembro de 1937, no Brasil, tipo de revolução e cuja fisionomia se acham consubstanciadas na frase famosa de ANTONIO CARLOS DE ANDRADE E SILVA, Presidente do Estado de Minas Gerais em 1930:
            Façamos a revolução antes que o povo a faça.
            Outro exemplo típico de revolução branca (golpe), encontramo-lo condensado no gesto da nobreza ateniense, a qual, no ano de 594 A.C., entrara em revolução por causo da grita e da revolta do povo então sufocado pela extrema severidade das leis de DRACON.
            Prosseguindo em nossa explanação diremos que, em seu profundo “Defensor Pacis”, diz MARCILIO DE PÁDUA que ao povo assiste o direito de punir os seus governantes, quando os mesmos ultrapassem os poderes que lhes são confiados ou quando violem sistematicamente as leis. JOÃO DE SALISBURY sustenta a existência e a validade do direito de revolução do povo contra as tiranias. Contra as tiranias e contra os abusos de autoridade, embora fazendo-o com cautela, porque tal procedimento poderá vir perturbar a paz civil; com essa prudente ressalva admite SANTO TOMAS DE AQUINO o recurso supremo da resistência contra os maus governos. Por sua vez, depois de afirmar que o governo deve se apoiar no consentimento dos governados, LOCKE aceita a legitimidade do direito de revolução quando se manifesta como resistência ao poder público ilegalmente constituído. Preconizava portanto o grande filosofo inglês o direito de revolução ou resistência contra a chamada usurpação de poderes, fenômeno tão freqüente na vida política sul-americana.
            Vemos, por conseguinte, em oposição mais que diametral ao que postulava HOBBES, que nenhum governante pode irrogar-se o poder de situar-se acima da religião e da moral, ou de legislar contra a lei. As leis jamais poderão insurgir-se contra a Lei; jamais poderão existir direitos contra o Direito. Uma política que permita o abuso político ou a violência governamental, que consista na violação da autoridade impessoal da lei, é uma política essencialmente corrompida e maquiavélica, altamente nociva e perigosa como a celebre “real-politik”, das ditaduras de HITLER e MUSSOLINI, as quais mais não foram senão insignificantes convicções armadas de objeta memória.
            O povo poderá arremeter-se contra os governos fraudulentos e danosos a paz jurídica, não somente lançando mão do extremo recursos das armas; poderá distanciar-se da violência armada, da resistência material propriamente dito, e lutar com arma pacifica, com tranqüilo instrumento do voto. O voto, esse grande e heróico remédio democrático, tem o mágico condão de fazer apear do poder dos maus governantes. Por isso ensina-nos BERNARD LAVERGNE que o voto, que o sufrágio universal, entre outras inúmeras vantagens, torna-se superfulas as revoluções…
            Revela ponderar, finalmente, que, aqui, estamos discorrendo acerca do conceito de revolução, o que é muito diferente do conceito de episódio histórico. Não é licito a ninguém confundir este com aquele. Episódio histórico é o vão simulacro de revolução; é a quartelada, o motim armado, a bernarda, o levante, a conspirata; é o movimento de massas sem pensamento superior, embora armado; é o movimento sem métodos eficazes, sem táticas poderosas e bélicas, organizadas e felizes.
            O episódio histórico é um pouco mais que um simples impulso revolucionário, como a denominada revolução de Sorocaba (1842), como a revolta monarquista de Pinhal (agosto de 1902). Semelhantes movimentos revolucionários pisam e palmilham um solo imaginário e se nutrem de alimentos quase que puramente abstratos.
           
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            Ainda a propósito do tema que ora nos empolga a atenção, apraz-nos transcrever abaixo os lúcidos e brilhantes comentários de GILBERTO FREYRE:
            …Pois ao contrario do que diz o conhecido lugar-comum, o fato histórico não se repete, é único, singular. Repetem-se as formas, as funções, os processos que neles se encarnam. Repetem as revoluções como formas e processos. Sob esse aspecto, são elas, até certo ponto, suscetíveis de previsão quanto a sua repetição, dada a relação que apresentam com circunstancias ou estímulos capazes de lhes provocar a eclosão; e dado o fato de encontrarem hoje, no Peru, por exemplo, circunstancias e estímulos favoráveis ao processo de competição ou conflito que se resolve por violência ou sob a forma de revolução; circunstancias e estímulos semelhantes às circunstâncias e estímulos que precedem a revolução Mexicana  e mesmo a Russa. Mas a revolução Mexicana não se repete como fato histórico. Nem a Mexicana e nem a Francesa, nem a Russa, nem a Chinesa. (Sociologia).  

® Ricardo Mateus Olivi - Nov/2007