|
—
R E V O L T A D E A G O S T O
—
O povo de Pinhal, na sua quase totalidade, recebeu com profundo e visível
agrado a noticia da esplendida vitória dos ideais republicanos, a despeito
deste triunfo ter sido verificado de forma imprevista e inesperada.
Proclamado o Estado republicano no país, operou-se incontinenti em Pinhal a
mudança das autoridades locais, ao mesmo tempo que aderia ao novo Governo
as mais salientes e respeitáveis personalidades da localidade.
Não acompanhamos, aqui, o brilhante publicista JOAQUIM PIMENTA,
quando discorre acerca do crepúsculo da Monarquia e sobre arrebol das
instituições republicanas, no Brasil. Diz ele:
“Se
algum sentimento monárquico, por ventura, existia no Brasil, era como
irradiação pessoal de D. PEDRO II, e com este desvanecera no negrume de
sua primeira noite no exílio, ainda em águas brasileiras.”
Evidentemente estes conceitos não persuadem, não traduzem nem
exprimem a verdade a respeito do importante acontecimento histórico que
comentam. Porque nem todos os brasileiros, desde então alcandorados a posição
de cidadão, se mostraram plenamente satisfeitos com a nova ordem política
implantada no país. Germens ocultos e acesos de desconfiança e
descontentamento jaziam e trabalhavam na mente de alguns políticos de
relevo e envergadura, enfileirando-se entre eles AFONSO CELSO, Visconde de
Ouro Preto, que havia sido Presidente do Conselho de Ministros do Império,
Chefe do Gabinete Ministral de 07 de abril. Deste varão insigne, justamente
admirado e respeitado pela sua notável estrutura moral e intelectual,
distinguiam-se ainda, no seio do movimento monarquista brasileiro, PENAFORTE
MENDES, irmão do estadista e grande jurisconsulto JOÃO MENDES DE ALMEIDA.
Tudo dizendo de melhor maneira: Em 1895, arrefecida a agitação
revolucionaria provocada pela chamada Revolta da Armada, restabelecidas as
garantias constitucionais sob a primeira presidência civil do país, que
fora a de PRUDENTE DE MORAES, os monarquistas brasileiros decidiram
agremiar-se ou aglutinar-se em sólido partido político, tal qual, haviam
feito os republicanos durante o extinto período monárquico. São Paulo,
ainda e sempre forja insuperável de todas as grandes iniciativas, foi o
centro preferido pelos chefes do partido monarquista para constituir-se em
sede do movimento, de âmbito nacional e cujo manifesto político foi
publicado em 15 de novembro de 1895. Compunham o novo partido político, ou
alistavam-se em suas fileiras, na primeira hora, além dos dois nomes já
acima apontados, entre outros, EDUARDO PRADO, ANTONIO FERREIRA DE CASTILHOS,
BENTO FRANCISCO DE PAULA E SOUZA, AUGUSTO DE SOUZA QUEIROZ, FRANCISCO A. DE
SOUZA QUEIROZ, RAFAEL CORREA DA SILVA SOBRINHO.
(Consigne-se aqui, entre parênteses e sem sombra de nenhum
paulistismo exagerado, que São Paulo desempenhou papel saliente na cruzada
política que estamos tentando descrever, como tem acontecido com todos os
demais importantes movimentos de opinião porque sua hegemonia, dentro do
Brasil, vem desde o Império, isto é, data do fim da guerra do Paraguai;
hegemonia esta, indiscutível, e que a República ampliou e consolidou
dentro da Federação, vigorando até os nossos dias).
Estes políticos influentes, estes prestigiosos chefes monarquistas
cavilosamente planejaram e encabeçaram um movimento revolucionário de
grandes proporções, visando a restauração da Monarquia no país.
Os fundamentos reais dessa revolução provavelmente repousavam em
erros cometidos pelo Governo da União. Sem dúvida entretinha essa ilusão
restauradora a presença de alguns erros aparentes, a ação de algumas
falhas momentâneas, de alguns tropeços provisórios, que englobados, são
conhecidos e apontados pelos historiadores sob o nome de crise institucional
da Republica. A iniciação financeira da república, in exemplis, é
geralmente considerada pelos competentes como um verdadeiro desastre.
Contudo, tais desacertos seriam previsíveis e inevitáveis, próprios mesmo
de um regime que buscava se completar e se consolidar. Num período crítico
e vacilante, numa fase de remodelação e de reajustamento dos quadros políticos,
econômicos e sociais da nação, era natural que uma onda de desorientação
e suspicácea fosse criada contra a nova configuração institucional do país,
configuração que certamente vinha afetar o interesse e a posição de
copioso numero de brasileiros. Estas razoes, mais fortemente talvez do que
os argumentos de ordem ideológica, foram com certeza os moveis que
persuadiram aquele poderoso elenco de políticos derribados pela implantação
da Republica, animando-os decisivamente a formarem e comporem o aludido complot
revolucionário. Assim, debaixo da influência e da intenção apaixonada de
defender interesses grosseiramente pessoais, desenvolvera-se uma formação
cancerosa, cujo supremo escopo era o de modificar a anatomia política da nação.
Vimos já que esse movimento monarquista, que esse projeto
subversivo, que ameaça a afundar o país no caos sanguinário e no forno
bestial da guerra civil, estendia-se por todo o imenso território nacional
com ramificação em Pinhal, cidade onde a citada conjuração contava com o
largo e franco apoio de numerosos saudosistas políticos. Entre os elementos
pinhalenses que içavam o estandarte da restauração monárquica, que a
propugnavam ou a que a ela estiveram estreitamente vinculados, embora
animados de um elevado idealismo e de uma pura nobreza de alma, tomavam posição
os Drs. ABELARDO e OTELO SOARES CAIUBY, os Srs. JORGE MACEDO, CLAUDINO DE
ULHOA CINTRA, ORLANDO NOVAIS, DANIEL BERNARDI, Dr. HADDOCK LOBO FILHO,
ALBERTO FLORENCE, SAMUEL DE ALMEIDA, os TENÓRIOS, JOÃO LOPES, ALÍPIO
COUTO e muitos outros.
Eram os pinhalenses que combatiam e profligavam com vigor essa
revolta monarquista, que rejeitavam com energia essa intentona restauradora
de agosto de 1902, podemos citar aqui, de envolta com centenas de outros
nomes, os de ABELARDO CERQUEIRA CÉSAR e Cel. ARTUR DE ALMEIDA VERGUEIRO.
A data do levante fora marcada com conveniente e adequada antecedência.
Entretanto por motivos ainda não bem averiguados veio a abordar a bernarda
sediciosa, fracasso total que os monarquistas pinhalenses, bem como os de
Sertãozinho (hoje Taquaritinga), ficaram ignorados na ocasião. De sorte
que, não sendo oportunamente avisados, não recebendo ordens nem instruções
para sustar a deflagração da rebelião, não tendo sequer ciência de que
a mesma houvera sido descoberta e abafada pelo Governo Federal, essa ignorância
decorrendo talvez da insuficiência dos parcos meios de comunicação, não
hesitaram os monarquistas de Pinhal e Sertãozinho em fazer rebentar a
revolta. Estourara, pois, a revolta, em caráter puramente local, passando
seus cabecilhas a agir conseqüentemente, isto é, a praticar atos materiais
de rebeldia contra a disciplina coletiva e republicana que reinava na
localidade.
Não há dúvida, portanto, que os acontecimentos desenrolados em
Pinhal, naquele dramático mês de agosto de 1902, assumiram o caráter e a
feição de verdadeira e original intentona sediciosa, sujeita a repressão
de ordem política e social.
* * *
Em resumo: no histórico dia 23 de agosto de 1902, foi proclamada a
monarquia em Pinhal!…
No dia subseqüente, pela madrugada, a cidade foi invadida por grupos
de homens armados, vindos, em grande parte, conforme foi apurado mais tarde,
das bandas de Minas Gerais. Estes invasores desconhecidos depuseram as
autoridades legais que dirigiam a localidade, apoderaram-se dos edifícios públicos
mais importantes, ocuparam a estação ferroviária da Companhia Mogiana,
passando a construir e organizar um governo local, de feição
ostensivamente monarquista.
O MM Juiz de Direito da Comarca, Dr. OTAVIO AFONSO DE MELO, foi, ao
que dizem certos oráculos da tradição, embarcado no ultimo trem que
seguia para Mogi Mirim. A respeito desta passagem histórica, o Dr.
FRANCISCO ÁLVARES FLORENCE, em notas e comentários que compôs para este
trabalho, escreve-nos textualmente:
“Não é real. O Dr. Otavio Afonso de Melo, ficou detido em
sua casa.”
A essa categórica afirmação soma-se a observação que nos fez,
caligrafada, o Dr. ABELARDO VERGUEIRO CÉSAR:
“Se não é verdade corrija-se. A verdade acima de tudo.”
Ainda no transcorrer daqueles turbulentos episodio extra-legais foi
elevado a efeito um grande comício político, realizado defronte a Igreja
Matriz, isto é, na praça mais pública, mais central e espaçosa da
cidade. Nessa rumorosa oportunidade proferiu célebre e inflamado discurso o
Dr. HADDOCK LOBO FILHO, medico possuidor de notável saber e de primorosa
inteligência, cuja alma então efervescida de arrebatado monarquismo.
Consta ainda, que outras autoridades locais resistiram a arbitraria
ordem de deixar ou abandonar a cidade, sendo, em conseqüência, detidos no
interior de suas próprias residências, permanecendo em exílio local ou
tendo por ménage a própria casa. Aqui temos outro ponto para ser
convenientemente elucidado, devendo serem anotadas com muito cuidado as
informações prestadas pelos antigos moradores do lugar, os quais
geralmente vivem da memória, essa cidade das tradições, como dizia
MACHADO DE ASSIS…
Vitoriosa a etapa preliminar da pequena revolução, providencias
foram imediatamente tomadas no sentido de que a mesma prosseguisse em seus bélicos
tramites, tais como oferecimentos de resistência armada e prática ou execução
de outras ações militares. Todavia, a despeito dessas viris e enérgicas
resoluções, apenas 36 horas, foi o período temporal em que Pinhal fora
governado e administrado pelas normas do extinto regime monárquico. Assim
breve e assim efêmera foi essa mudança de instituições, porque, sabedor
o Governo do Estado das graves desordens e tropelias que ali desenrolavam,
diligenciou incontinenti a remessa ou expedição de um adequado contingente
de força armada para por-lhes fim, restabelecendo a ordem pública violada
e garantindo a estabilidade nacional ameaçado. Suspensos na ponta desta difícil
conjuntura, guindados ao ápice desta delicada emergência e só então
tomando conhecimento de que, com exceção dos revolucionários de
Ribeirãozinho,
estavam agindo isoladamente, os subversores pinhalenses deliberaram encerrar
o movimento sem opor a mínima resistência a tropa expedicionária
estadual, que ali desembarcara…
O Dr. ADOLFO GREEF BORBA, terceiro Promotor Público, em ordem cronológica,
da Comarca de Pinhal, foi enviado a zona sediciosa, investido nos poderes de
uma espécie de interventor municipal, representando e sendo figura de
imediata confiança de BERNARDINO DE CAMPOS, Presidente do Estado, bem como
de JOSÉ CARDOSO DE ALMEIDA, Chefe de Policia da Capital. A missão de que
fora encarregado o ilustre órgão do Ministério Público de Pinhal
consistia em impor a obidiencia a lei na cidade rebelde em restabelecer o
respeito as autoridades constituídas, devolvendo-lhe a paz, a segurança e
a tranqüilidade. Tais e tão elevados desideratos foram fielmente
cumpridos, voltando a normalidade a cidade que fora rudemente abalada por
sucessos e espetáculos intempestivos. É para notar-se, aqui, que o Dr.
ADOLFO GREEF BORBA portara-se, no desempenho de sua espinhosa missão, com
todo o cavalheirismo de que era dotado, agindo com grande elevação de
animo e com escrupuloso respeito a dignidade de cada um.
O Dr. ABELARDO CERQUEIRA CÉSAR, achando-se esse tempo em São Paulo,
foi igualmente convocado pelo Governo do Estado afim de, na qualidade de
pessoa profundamente conhecedora da região irritada, acompanhar a expedição
militar que para ela havia sido enviada sob o comando do Primeiro Delegado
Auxiliar da Capital, Dr. JOSÉ ROBERTO LEITE PENTEADO, que se fez assessorar
pelo Dr. PAULO MACHADO FLORENCE, então Delegado de Policia de Campinas. Ao
escolher o excelso vulto do Dr. ABELARDO CERQUEIRA CÉSAR, para o
cumprimento dessa delicada e melindrosa tarefa, o Governo do Estado
certamente teve em vista o gênio pacificador, o espírito da conciliação
e o prestigio temperado de docilidade e harmonia, que tão ricamente ornavam
a personalidade desse influente político e homem público. E realmente o
acerto dessa escolha feliz logo fez-se notar; realmente no desempenho de sua
árdua e penosa incumbência, o Dr. ABELARDO CERQUEIRA CÉSAR, procedeu com
elevado critério e sentimento, atuou de modo honroso e apaziguador, agiu
com prudência quase filosófica, mormente nos momentos cruciais que
sucederam a sufocada revolta. A cordura inata, o sutil e delicado senso das
circunstancias, os cristalinos apanágios morais desse nobre e ilustre cidadão
influíram consideravelmente na atenuação e no abrandamento dos rigores
repressivos, desencadeados pela administração do Estado contra os
revoltosos. Foi nessa triste e áspera encruzilhada que o Dr. ABELARDO soube
acalmar os ânimos ainda fermentados, semeando a concórdia e a amizade
entre os desavindos, serenando e pacificando com brandura todos os
antagonismos pessoais, culminando por trazer a paz e a harmonia ao seio da
família pinhalense.
Em suma: a tropa expedicionária, enviada pelo Governo do Estado a
Pinhal, tinha dois destinos a cumprir: ou estrangular a revolta, com a
aplicação da força, ou sufoca-la, com emprego dos meios suasórios. Os
fatos posteriores vieram a demonstrar, como vimos, que preponderam os
recursos da prudência e do coração, isto é, triunfou a missão civil, não
tendo sido disparado um só tiro para que obtivesse a rendição
incondicional dos revoltosos, os quais, de bom grado depuseram as armas,
entregando-se ou dispersando-se a aproximação da expedição militar.
Como estamos vendo, a pacificação da família pinhalense foi
completa, no transcurso daqueles dias duros e difíceis. Tudo como que fora
ouro sobre o azul. Todavia, é de crer que fatos desagradáveis podiam e
deviam ter ocorrido, no desenlace do movimento cuja historia estamos
sintetizando. Assim é que, por exemplo, tem-se mencionado como verdadeiro,
como autentico fato de que, naquela ocasião, a chácara do sr. DAMASO TITO
DA MOTA PAES, fora varejada e danificada, não ficando um só móvel intacto
na casa em que lhe servia de sede. Seria este um ponto controversial, falto
ou não de autenticidade histórica?…
O certo é, porem, que nenhum tratamento cruel foi pessoalmente
dispensado aos rebeldes; foram eles simplesmente presos e escoltados para a
Capital do Estado, injunção esta exclusivamente imposta aos chefes e cabeças
do movimento revolucionário, nada mais sucedendo ao restante numero de seus
adeptos e simpatizantes. Presos e conduzidos a São Paulo foram então o Dr.
HADDOCK LOBO FILHO, JOSÉ RIBEIRO DA MOTA, BARÃO DE MOTA PAES e Dr.
CAROLINO FERREIRA DA SILVA, considerados como sendo os vultos centrais as
figuras exponenciais da sedição. Pouco tempo mais tarde, não remanescendo
motivo algum que justificasse a manutenção em custodias dessas ilustres
personalidades, foram elas devolvidas a liberdade e ao convívio social.
Revele-se agora, a titulo de curiosidade, em consonância com os
informes da tradição oral a passagem em que fora protagonista principal o
Dr. HADDOCK LOBO FILHO. Conta-se que ele, ao ser preso pelos legalistas,
exclamara com bravura antiga, com audácia teatral:
“—
Eu sou monarquista!…”
* * *
Os anos correram após a deflagração desse curioso episodio
revolucionário; e, a medida que o tempo ia transcorrendo, os monarquistas
ou sebastianistas pinhalenses foram reconhecendo e se capacitando de que a
monarquia não passa de uma forma de governo inteiramente divorciada das
realidades nacionais, inteiramente incompatível com a índole dos povos
americanos. Reconheceram por
fim, aqueles ferrenhos idolatras do passado, aqueles empedernidos
conservadores, que a democracia e o regime federativo constituíam a única
atmosfera sob a qual podia o Brasil viver, respirar e prosperar, crescer e
progredir. Persuadiram-se, afinal, aqueles homens enamorados das dinastias
infecundas, de que a Monarquia representa uma forma superada, retrograda e
ultrapassada de governo das nações, compreendendo que o regime monárquico
é um sistema político morto, fossilizado, completamente incapaz de se
renovar a si mesmo. Organicamente convencidos do acerto dessas verdades
fundamentais, aqueles pinhalenses de valor pessoal espontaneamente aderiram
a República e aos supremos e formosos ideais que ela encarnava. Estava já
a República definitivamente implantada e consolidada no país inteiro; e,
como se tratava de homens de grande relevo individual, de homens de indiscutível
destaque e prestigio social e político, muitos deles terminaram por prestar
importantes e inestimáveis serviços a coletividade e a Nação,
sentindo-se nobremente felizes e poderem servir a grande Pátria Brasileira.
Esta é a pura verdade histórica: passados os acontecimentos de
agosto de 1902, esquecidas àquelas horas de dolorosas apreensões cívicas,
os Monarquistas pinhalenses desprezaram para sempre os restos mortais da
Monarquia… Daí as palavras escritas pelo Dr. ABELARDINHO, no verso da
folha 80 dos originais deste livro:
“Meses, ou um ou dois anos depois os mesmos os mesmos que
foram contrários e adversários da Revolução de 1902, patroeinaram a
colocação do retrato de Armando Soares Caiuby no Club Recreativo
Pinhalense, um dos principais chefes da Revolução.”
Mais total esquecimento do passado não é possível… Tal fato
demonstra claramente a alta concórdia, o sereno e superior espírito em que
veio a se findar a singular e histórica rebelião pinhalense.
* * *
Já deixamos acentuadas as incalculáveis vantagens e benefícios
advindos no Brasil, em conseqüência da queda da monarquia. Já assinalamos
devidamente a forma pela qual essa mudança integral de ritmo político
trouxe ao Brasil uma nova e vigorosa mobilidade de crescimento substantivo.
Em virtude dessa profunda e improvisa transformação de estrutura política
e social, que alterara situações que se acreditavam eternas, cessou o
Brasil de ser a grande exceção americana, a solitária exceção
continental, porquanto era ele o único país Imperial, a única nação monárquica
no mapa do continente, não obstante jamais ter se revelado naquele colosso
imperialista e repace, como o paranóico SOLANO LOPES havia velhacamente
assoalhado no estrangeiro, fazendo-o com o perverso e mal dissimulado
intento de grangear simpatia internacional e de elaborar previamente a
justificação diplomática e moral da pérfida guerra que surdamente nos
preparava, guerra que, afinal, emergindo dos fechados bastidores, nos
declarou e nos moveu fatídico ano de 1864.
O imperialismo intelectual francês e a influencia política inglesa
e norte-americana constituem a essência ao mesmo tempo literária
doutrinaria da propaganda pertinaz, da demolidora pregação revolucionaria
republicana. Os políticos nacionais, os estadistas pátrios, a mocidade romântica
e liberal do Brasil viviam encharcados de racionalismo, de enciclopedismo,
de literatura revolucionaria, de contrato social; as instituições britânicas
e yankees fascinavam, deslumbravam as gerações patrícias. Naquela época
somente a sensibilidade era brasileira, a inteligência era francesa, como
dissera JOAQUIM NABUCO, em famosa e feiticeira pagina de Minha Formação.
No entanto, podemos garantir sem hesitar que o que derrubou o Império não
foi o povo, não foi a opinião civil, foram o Exército e a Armada.
O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, sem conhecer o que
significava, sentenciava ARISTIDES LOBO, horas ante de ser nomeado Ministro
do Interior do Governo Provisório. Quase ninguém sabia de nada. Nas
Laranjeiras, não se fiava nos boatos insistentes de que o pronunciamento
militar estava prestes a rebentar. O próprio Imperador naquele novembro
histórico, veraneava tranqüilamente em Petrópolis, ignorando que o próprio
Ministério sabia mal e mal. D. PEDRO II, a exemplo de NICOLAU, trazer da Rússia,
nos trágicos e silenciosos dias que precederam a sanguinolenta irruação
da revolução bolchevista, jazia positivamente tranqüilo e alheio aos
surdos movimentos que se desenrolavam nas câmara subterrâneas do país.
FLORIANO, na cúpula do Exército, e LADARIO a frente da Marinha, eram
elementos de absoluta confiança do Rei. Contudo, os fados sombrios tramavam
na sombra, porque o BARÃO DE LADARIO, por causa de sua cega obstinação
monárquica, em virtude de sua extrema fidelidade a D. PEDRO II e ao regime
iria, logo mais, ser alvejado a tiros…
A República foi, na expressão de PEDRO CALMON, uma imensa surpresa,
estourando no país como uma granada. É célebre a frase de um viajante
inglês, que se encontrava no Rio de Janeiro naquela ocasião, narrando que
um destaque de tilburi, em Londres, teria provocado maior alarido e maior
sensação do que os decisivos acontecimentos do Campo de Santana, do que a
Proclamação da República no Brasil. Realmente a Republica brasileira foi
improvisada numa parada de soldados no Campo de Santana. Com exclusão da
bela passeata militar e da garbosa formatura dos regimentos alinhados,
comandados por DEODORO, o povo nada mais via de substancial no esplendor
daquela quente e calma manhã carioca. O país acordou, no dizer de AFRÂNIO
PEIXOTO, assustado e perplexo, entre um hábito antigo e uma moda nova. Mas
acrescenta, ainda o mesmo distinto escritor, a proclamação da República
nem mesmo foi parada vistosa: ameaça na sombra e capitulação apressada.
O povo esse monstro de mil cabeças, no conceito de ENRICO FERRI,
presenciou, tinto e pasmo, contemplou, com curiosidade plasmada, o natal da
República. O povo não esperava assim rápida, o povo e o próprio partido
republicano: tudo se passou em segredo, tudo era conhecido apenas por alguns
círculos militares fechados, por algumas reservadas rodas civis. De tal
arte que, apesar de ser, juntamente com a Independência e a Abolição da
Escravatura, um dos mais altos picos de nossa cordilheira histórica, a República
constituiu-se numa verdadeira antecipação, numa conquista imprevista e
quase temporânea para a comunhão nacional.
Dúvida não persiste, pois, de que a República foi uma antecipação,
um acontecimento a bem dizer extemporâneo, encontrando a maior parte da
população nacional desprevenida para recebe-la, compreende-la e saúda-la.
E é por isso também que, dada a brusca transformação operada em nossas
instituições políticas básicas, operação revolucionaria que em outros
países da América Latina custara lutas ferozes, fizera correr rios de
sangue, nem todos os brasileiros puderam aprender desde logo o exato e
profundo significado dessa radical alteração da fisionomia institucional
da nação, não logrando identificar-se prontamente com a sumaria eliminação
de velhos e arraigados hábitos públicos, não conseguindo posse em
sintonia com a violenta e súbita debelação de antigos e tradicionais
costumes políticos, sentindo-se constrangidos e incapazes de aceitarem sem
protestos a demolição de uma mentalidade social solidamente formada e
alimentada através de muitos e muitos anos.
Era imenso, no país, o numero de brasileiros que não se achavam
ainda amadurecidos para viver sob o regime republicano. De ordinário, a República
somente fora vista sendo implantada a ferro e fogo. Diz HERRERA que a América
do Sul derramou torrentes de sangue em homenagem ao Contrato Social. A
historia das lutas republicanas em Roma, antigamente a vida tormentosa de
SIMÃO BOLIVIAR, o cavaleiro da gloria, as existências agitadas de MIRANDA
Ó HIGGINS, SAN MARTIN, WASHINGTON e LAFAYETE, moderadamente, são demonstrações
vivas e edificantes das porfias que se devem travar, das dificuldades que se
devem vencer antes que se consiga implantar e consolidar instituições
novas em qualquer região povoada do planeta.
Assim, a insurreição monarquista, de que Pinhal foi teatro em 23 de
agosto de 1902, constitui uma prova tangível e irrefragável de como é
penoso e demorado, de como é sanguinolento mesmo, o processo de assimilação
e de adaptação institucional num dado país; os tropeços, a lentidão no
absorver e no compreender e interpretar o espírito da mudança de construção
social e política, em face de sua repetição quase invariável através do
tempo, chegam a constituir uma verdade da historia, ano uma lei histórica,
mas um fenômeno histórico considerado inevitável.
É verdade que a historia não se repete, no sentido próprio e
rigoroso da palavra, mas os fenômenos históricos são muitos parecidos. Não
se repetem mas se parecem. Por outro lado, o passado, embora não podendo
voltar nunca, quando considerado em si mesmo, consegue contudo infiltrar-se
nas conveniências do presente. Em certo aspecto, o passado é mesmo muito
teimoso, buscando assomar e impor ao presente as suas visões particulares.
Nesse fenômeno reside a força expansiva que galvanizou os revolucionários
pinhalenses de 1902.
* * *
Desconheciam certamente os monarquista pinhalenses que biológica,
social e politicamente a vida é uma renovação perene um perpetuo fieri,
olvidavam sem dúvida que tudo muda incessantemente, que a mobilidade
permanente é a condição da vida, que a decrepidez das formas sociais e
políticas é um imperativo inelutável, que a formação de novas idéias e
concepções é uma necessidade existencial para os indivíduos, povos,
estados e nações. Ignoravam por certo, aqueles idealistas, que é perigoso
e insensato conservar o que é antigo contra as novas imposições da vida
social e política, defendendo interesses anacrônicos contra um interessa
coletivo e atual, como com justeza proclamara KARL MAX no Discurso no
Tribunal de Colônia.
Um tradicionalismo mal compreendido, um instinto de conservação
defeituosamente aplicado fez com que se achasse prestes a explodir, no
organismo poderoso da República recém implantada, um movimento de
descontentamento e rebeldia, um gânglio de rebelião e revolta uma grande
ulcera sediciosa. Tal foi o que veio a suceder em Pinhal, em 1902, em um
tempo, portanto, que se situava fora do período climatérico, fora do
tormentoso e melindroso período constitucional da República cuja proclamação
havia custado vinte anos de pregação e propaganda.
Já em 04 de maio de 1896, em discurso pronunciado no banquete
oferecido a FRANCISCO GLICÉRIO (jocosamente apelidado de general
das 21 brigadas), JULIO MESQUITA evidenciara que a República fazia
desespero de uma minoria impenitente, e disposta a desmonta-la a todo o preço,
fosse através da restauração da Monarquia ou fosse através da ocupação
das oposições de responsabilidade, sem desdenhar dos próprios poderes políticos
da nação. Neste trecho estão traçados com fidelidade os ideais que
imantaram a eclosão da famosa revolta monarquista de Pinhal e do antigo
Ribeirãozinho, revolta que, como já vimos precedentemente, terminou por se
converter numa frustra tentativa de restaurar o principio dinástico no país,
o qual deveria continuar vivendo sob o reinado pessoal de D. PEDRO II.
Essa mazorca pinhalense (permitam-me a expressão, algo violenta e
deprimente), articulada concomitantemente com a hoje cidade Taquaritinga,
foi uma aventura revolucionaria idealizada e sustentada por misoneistas, por
saudosistas do ancien régime. Esse plano, entretanto, foi vivamente
repelido pela porção moça, avançada, construtiva e moderna da população
local daquela época: a melhor parte da cidade vivia inteiramente emancipada
dos prejuízos, dos preconceitos e princípios vigentes em um passado
defunto, com o qual não mantinha nenhum compromisso de ordem moral, com o
qual não se sentia presa de nenhum liame da natureza ideológica, com o
qual não se vinculava pelos laços de nenhum parentesco lógico ou ideal.
A chamada Revolução de Agosto, nada mais representa, na historia da
civilização pinhalense, do que um débil e esporádico episodio de
sebastianismo político, nada mais simboliza do que uma simples e gorada
agitação reacionária, uma jornada insensata e despojada de idêntico
idealismo revolucionário. Foi, aquele, quase um movimento de cavalheiros
desocupados, como diria ÁLVARO LINS, desde o nascedouro condenada, por
assim dizer, ao mais estrondoso insucesso, ao mais fragoroso fracasso. Já
vimos, alias, que este fenômeno histórico reacionarismo social e político
é bastante comum as nações e aos povos longamente dominados por este ou
por aquele sistema de governo, por esta ou por aquela forma de organização
social, eriçando-se ou pondo-se em antagonismo contra os que pretendem
implantar inovações nessas estruturas fundamentais.
Despido do verniz sentimental, isentos a afetividade, subtraídos a
estima pessoal dedicada ao pacifico neto de MARCO AURÉLIO, ou seja, a magnânima
e patriarcal figura de D. PEDRO II, que governara a nação durante quase
meio século, pouco mais remanescia de elevado aos briosos inconfidentes
pinhalenses. Está visto que os revoltosos pinhalenses amavam quase
organicamente o absolutismo pessoal de D. PEDRO II, adoravam o humanismo
bizantino e ingênuo do velho BRAGANÇA, candidamente considerado virtuoso
com SÃO LUIZ e sábio como MARCO AURÉLIO. Os monarquistas de Pinhal
almejavam afetuosamente a volta do honrado Patriarca, o retorno do bondoso
Imperador, eram queremistas apaixonados, queriam a testa da nação o tranqüilo
e quase meigo estudioso do retiro bucólico da Quinta da Boa Vista. Pensavam
e agiam, por conseguinte, impelidos não por razoes políticas, econômicas
ou sociais, mas por razoes naturalmente ternas e emocionais. Na verdade,
tratava-se de um rei bastante digno de inspirar fervor e devoção;
pessoalmente parecia ser o mais inatacável dos seres. Sobre este imperador
que veio a morrer em Paris em 05 de dezembro de
1891, destacamos estas palavras severas e justas do grande
jurisconsulto brasileiro PAULO DE LACERDA:
No exílio nunca promoveu nem auxiliou qualquer tentativa contra o
novo regime político; homem de raro cultivo intelectual e de experiência
fora do comum, bem certo estava de que a forma republicana de governo era
criação das forças incoercíveis ao ambiente social.
O que passou em Pinhal foi, portanto, um episodio concebido e
executado, não com as sugestões argutas e luminosas da razão, mas com as
razoes turvadas e pueris do coração. Um movimento assim, apenas debochado
pela decisão teórica dos espíritos, tinha que necessariamente que ser
bastante semelhante, guardadas as devidas proporções, a celebre conjuração
mineira, eclodida no país em 1789: conjuração ou conspiração elaborada
e conduzida por vates ardentes, por criaturas líricas e prenhes de imaginação
poética, movimento subversivo no qual não reluzia a lâmina de nenhuma
espada, na qual se não vislumbrava nenhum vestígio de organização
militar, na qual não se discernia nenhum lampejo de inteligência prática,
nenhum esboço de plano estratégico tecnicamente traçado, permanecendo,
pois essa revolução, necessariamente quimérica e irrealizável.
Já que estamos pisando o terreno sedutor das comparações históricas,
comparações que se não poderá intitular de aproximações bizarras e fúteis,
reservamo-nos o direito da afirmar que essa verossimilhança pode ser
estendida, mutatis mutandis, a outros diversos movimentos subversivos
nacionais, tais como a Confederação do Equador (1817), ou a insurreição
de BECKMANN (1784), revoltas estas que são, em certo sentido, irmãs gêmeas
do insucesso trágico da malograda conspiração de Vila Rica; isto é, são
revoltas realizadas sem clima filosófico prático, reações nativistas
levadas a efeito sem fundamento cientifico, sem ideologia, sem mística, sem
técnica, sem metafísica.
Pinhal igualmente, em agosto de 1092, viveu um drama político
exclusivamente romântico. Foi em seus motivos, métodos e finalidades, um
movimento romântico de inconformistas desprovidos de recursos materiais;
foi uma revolução sem armas, sem guerreiros, sem tropas de combate, o que
equivale a dizer que foi uma revolução sue generis; foi uma revolução
destituída de elementos suficientemente numerosos e coesos para enfrentar e
remover obstáculos bélicos; foi uma sedição platônica, capitaneada por
idealistas verbais, por descontentes teóricos, invencivelmente fadada
portanto ao malogro, muito embora sendo de natureza generosa e espontânea,
ainda que gestada nas raízes profundas e puras de uma centena de almas de
elite.
Entre a falange de rebeldes pinhalenses inexistiu propriamente um
chefe, faltou a presença de um BENJAMIN CONSTANT, por exemplo, e que foi a
alma da campanha republicana e da pregação revolucionaria que antecedeu e
condicionou a conquista da República; inexistiu um líder, como FREI
CANECA, o sublime mártir pernambucano; inexistiu um condottieri, um fuhrer,
um personagem da altitude de TIRADENTES, o chefe moral dos inconfidentes
mineiros, a lúgubre exceção da Inconfidência, na expressiva linguagem de
PANDIA CALOGERAS, ou melhor, o único dos conspiradores montanheses a sofrer
a pena capital, terminando sendo justiçado na forca com viril e admirável
desassombro, acabando sendo imolado na forca por imposição da implacável
justiça bragantina, estribada nos mesmos motivos pelos quais anteriormente
mandara enforcar FELIPE DOS SANTOS.
Revolta emocional de agosto, eis o verdadeiro nome que dever-se-ia
dar a esse tentame revolucionário sem organização técnica a esse
movimento sedicioso orientado por letrados e por velhos políticos da terra,
supervisionando ineptamente por honrados burgueses e honestos chefes de família,
por pacíficos abencerragens do monarquismo defunto. A própria benevolência
empregada pelo Governo do Estado, enérgico mas sem dureza, ao fazer
silenciar os insurgentes, ao impor submissão aos insurretos, demonstra a
fraqueza técnica do movimento que fora obrigado a reprimir; a indulgência
estatal evidencia, sem duvida alguma, a fragilidade estratégica daquela
campanha, a debilidade militar daquele pseudo-revolução, na qual jamais se
fez sentir a presença indispensável e decisiva do soldado. E foi com
extrema facilidade que um modesto destacamento militar do Governo do
Estadual estancou o sonho mirífico dos revoltosos pinhalenses, que vieram
para a cena da historia apenas municiados com um grande equipamento teórico
de entusiasmo e de vontade de vencer, nunca com uma vontade prática e com
condições materiais para lutar e para pelejar vitoriosamente pelo ideal.
Nenhum movimento desse tipo jamais poderá triunfar exclusivamente
através do manejo da pena e do pensamento. A teoria, o livro as abstrações;
o panfleto, o jornal, o radio, a tribuna, apenas podem ser estimulantes da
luta armada, apenas só em despertar fé e entusiasmo pela causa, como
justamente aconteceu durante a Revolução Constitucionalista de 1932, em São
Paulo; esses são os instrumentos da guerra dialética da guerra teórica,
da guerra abstrata, da guerra intelectual, precursora e vivificadora da
verdadeira guerra, a guerra ativa. Típico exemplo de que acabamos de
afirmar vamos encontrar em ROSSEAU, cuja obra imortal introduziu uma nova
pulsação no mundo: a publicação e a divulgação do Contrato Social e de
sua demolidora filosofia política fixam nitidamente que a revolta
intelectual engendrou a Revolução Francesa, de imensas ressonâncias em
todo o mundo ocidental. Os prodromos desta grande revolução da historia da
humanidade faz-nos intuir que todo movimento revolucionário é sempre
precedido de um movimento filosófico, isto é, parte primeiramente do espírito
para depois alcançar a ação direta e positiva. Primeiro a idéia, depois
a ação, não se podendo deixar de notar que o pensamento é já meio ato,
consoante nos ensina elementar noção de psicologia, esclarecendo-nos, que
o efeito dinâmico da idéia vem da imagem que a acompanha.
Seguindo esta diversa e ondulante ordem de considerações, vemos que
a questão da escravatura, verbi gratia, teve a sua gênese histórica
em uma simples tese de filosofia, sustentada denodadamente por alguns
arrojados metafísicos e ideólogos audaciosos. Entretanto cumpre elucidar
que das nuvens da teoria pura, dos ventos da fantasia, a generosa idéia
abolicionista foi tomando vulto nos espíritos, foi ganhando vagarosamente a
posse das consciências e dos corações, foi lentamente abrindo caminho
entre as turvas e confusas correntes das massas populares, até
transformar-se numa caudal que nada poderia conter ou deter. Pouco a pouco
toda a opinião pública e privada do Brasil foi sendo arrastada e
impressionada por esse idealismo ardente, que não temia em promover o
complexo processo da escravidão, criando condições profundamente propícias
e extremamente favoráveis a sua radical abolição. Esse fremente idealismo
JOAQUIM NABUCO e JOSÉ DO PATROCÍNIO, entre outros, transportaram-no na
magia e nos feitiços de uma eloqüência admirável; CASTRO ALVES
celebrou-o condoreiramente nas asas e nos assomos de seus versos
deslumbrantes e sublimes, consagrando-se para sempre como sendo o supremo e
perene poeta dos escravos. SILVA JARDIM, ANDRÉ REBOUÇAS, QUINTINO BOCAIÚVA,
RUI BARBOSA, aliaram-se imortalmente ao negro sublime, ao cognominado Tigre
da Abolição, desfraldando com maravilhoso élan a bandeira do
abolicionismo teórico e filosófico. A partir daí a idéia da libertação
dos escravos estava plenamente amadurecida para ser posta em prática, para
tornar-se em fulgurante realidade, o que realmente veio acontecer; triunfou
por fim a nobilíssima causa da abolição, embora tivesse que vencer e
transpor obstáculos temíveis e graves porque ninguém ignora que ela
custou o trono do Brasil. O preço pago pela libertação dos escravos foi a
queda da monarquia como sombria e profeticamente vaticinara a maior inteligência
do Segundo Império, ou melhor ainda um paralelo de BRIAND, um dos homens de
maior capacidade intelectual que até hoje apareceu na historia do Brasil:
este gênio político outro não é senão o capacíssimo de clarividentíssimo
JOÃO MAURICIO WANDERLEY, Barão de COTEGIPE. Não se dignou em ouvir-lhe o
conselho; e por isso perdeu o trono…
Como exemplo estrangeiro do que aqui vimos afiançado podemos
depara-lo na historia dos Estados Unidos da América do Norte, onde a abolição
da escravatura demandara quatro longos e porfiosos anos de tremenda guerra
civil, culminando LINCOLN por objetiva-la em 1863, libertando então cerca
de quatro milhões de escravos e unificando inteiramente as raças que
povoam aquela nação riquíssima e poderosa. Pois bem, esse notável
acontecimento histórico, esse acontecimento histórico de culminante relevo
universal veio a patentear mais uma vez que no curso vário e perpetuo da
historia, a idéia se revela sempre mais forte do que a froça das
baionetas, embora sempre preceda a esta, seguindo-a como uma aia extremosa e
fiel.
Dom LUDGERO JASPERS o diz superiormente:
“A historia do mundo é a historia de suas idéias”.
E JOSÉ INGENIEROS o proclama lapidarmente:
“As grandes revoluções se fazem com doutrinas de pensadores”.
|