O texto contido nesta página, foi transcrito do livro Pequena História da Civilização Pinhalense, escrito por Ubirajara Rocha em 1964

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  R E V O L T A  D E  A G O S T O 
 
            O povo de Pinhal, na sua quase totalidade, recebeu com profundo e visível agrado a noticia da esplendida vitória dos ideais republicanos, a despeito deste triunfo ter sido verificado de forma imprevista e inesperada. Proclamado o Estado republicano no país, operou-se incontinenti em Pinhal a mudança das autoridades locais, ao mesmo tempo que aderia ao novo Governo as mais salientes e respeitáveis personalidades da localidade.
            Não acompanhamos, aqui, o brilhante publicista JOAQUIM PIMENTA, quando discorre acerca do crepúsculo da Monarquia e sobre arrebol das instituições republicanas, no Brasil. Diz ele:
            “Se algum sentimento monárquico, por ventura, existia no Brasil, era como irradiação pessoal de D. PEDRO II, e com este desvanecera no negrume de sua primeira noite no exílio, ainda em águas brasileiras.”
            Evidentemente estes conceitos não persuadem, não traduzem nem exprimem a verdade a respeito do importante acontecimento histórico que comentam. Porque nem todos os brasileiros, desde então alcandorados a posição de cidadão, se mostraram plenamente satisfeitos com a nova ordem política implantada no país. Germens ocultos e acesos de desconfiança e descontentamento jaziam e trabalhavam na mente de alguns políticos de relevo e envergadura, enfileirando-se entre eles AFONSO CELSO, Visconde de Ouro Preto, que havia sido Presidente do Conselho de Ministros do Império, Chefe do Gabinete Ministral de 07 de abril. Deste varão insigne, justamente admirado e respeitado pela sua notável estrutura moral e intelectual, distinguiam-se ainda, no seio do movimento monarquista brasileiro, PENAFORTE MENDES, irmão do estadista e grande jurisconsulto JOÃO MENDES DE ALMEIDA.
            Tudo dizendo de melhor maneira: Em 1895, arrefecida a agitação revolucionaria provocada pela chamada Revolta da Armada, restabelecidas as garantias constitucionais sob a primeira presidência civil do país, que fora a de PRUDENTE DE MORAES, os monarquistas brasileiros decidiram agremiar-se ou aglutinar-se em sólido partido político, tal qual, haviam feito os republicanos durante o extinto período monárquico. São Paulo, ainda e sempre forja insuperável de todas as grandes iniciativas, foi o centro preferido pelos chefes do partido monarquista para constituir-se em sede do movimento, de âmbito nacional e cujo manifesto político foi publicado em 15 de novembro de 1895. Compunham o novo partido político, ou alistavam-se em suas fileiras, na primeira hora, além dos dois nomes já acima apontados, entre outros, EDUARDO PRADO, ANTONIO FERREIRA DE CASTILHOS, BENTO FRANCISCO DE PAULA E SOUZA, AUGUSTO DE SOUZA QUEIROZ, FRANCISCO A. DE SOUZA QUEIROZ, RAFAEL CORREA DA SILVA SOBRINHO.
            (Consigne-se aqui, entre parênteses e sem sombra de nenhum paulistismo exagerado, que São Paulo desempenhou papel saliente na cruzada política que estamos tentando descrever, como tem acontecido com todos os demais importantes movimentos de opinião porque sua hegemonia, dentro do Brasil, vem desde o Império, isto é, data do fim da guerra do Paraguai; hegemonia esta, indiscutível, e que a República ampliou e consolidou dentro da Federação, vigorando até os nossos dias).
            Estes políticos influentes, estes prestigiosos chefes monarquistas cavilosamente planejaram e encabeçaram um movimento revolucionário de grandes proporções, visando a restauração da Monarquia no país.
            Os fundamentos reais dessa revolução provavelmente repousavam em erros cometidos pelo Governo da União. Sem dúvida entretinha essa ilusão restauradora a presença de alguns erros aparentes, a ação de algumas falhas momentâneas, de alguns tropeços provisórios, que englobados, são conhecidos e apontados pelos historiadores sob o nome de crise institucional da Republica. A iniciação financeira da república, in exemplis, é geralmente considerada pelos competentes como um verdadeiro desastre. Contudo, tais desacertos seriam previsíveis e inevitáveis, próprios mesmo de um regime que buscava se completar e se consolidar. Num período crítico e vacilante, numa fase de remodelação e de reajustamento dos quadros políticos, econômicos e sociais da nação, era natural que uma onda de desorientação e suspicácea fosse criada contra a nova configuração institucional do país, configuração que certamente vinha afetar o interesse e a posição de copioso numero de brasileiros. Estas razoes, mais fortemente talvez do que os argumentos de ordem ideológica, foram com certeza os moveis que persuadiram aquele poderoso elenco de políticos derribados pela implantação da Republica, animando-os decisivamente a formarem e comporem o aludido complot revolucionário. Assim, debaixo da influência e da intenção apaixonada de defender interesses grosseiramente pessoais, desenvolvera-se uma formação cancerosa, cujo supremo escopo era o de modificar a anatomia política da nação.
            Vimos já que esse movimento monarquista, que esse projeto subversivo, que ameaça a afundar o país no caos sanguinário e no forno bestial da guerra civil, estendia-se por todo o imenso território nacional com ramificação em Pinhal, cidade onde a citada conjuração contava com o largo e franco apoio de numerosos saudosistas políticos. Entre os elementos pinhalenses que içavam o estandarte da restauração monárquica, que a propugnavam ou a que a ela estiveram estreitamente vinculados, embora animados de um elevado idealismo e de uma pura nobreza de alma, tomavam posição os Drs. ABELARDO e OTELO SOARES CAIUBY, os Srs. JORGE MACEDO, CLAUDINO DE ULHOA CINTRA, ORLANDO NOVAIS, DANIEL BERNARDI, Dr. HADDOCK LOBO FILHO, ALBERTO FLORENCE, SAMUEL DE ALMEIDA, os TENÓRIOS, JOÃO LOPES, ALÍPIO COUTO e muitos outros.
            Eram os pinhalenses que combatiam e profligavam com vigor essa revolta monarquista, que rejeitavam com energia essa intentona restauradora de agosto de 1902, podemos citar aqui, de envolta com centenas de outros nomes, os de ABELARDO CERQUEIRA CÉSAR e Cel. ARTUR DE ALMEIDA VERGUEIRO.
            A data do levante fora marcada com conveniente e adequada antecedência. Entretanto por motivos ainda não bem averiguados veio a abordar a bernarda sediciosa, fracasso total que os monarquistas pinhalenses, bem como os de Sertãozinho (hoje Taquaritinga), ficaram ignorados na ocasião. De sorte que, não sendo oportunamente avisados, não recebendo ordens nem instruções para sustar a deflagração da rebelião, não tendo sequer ciência de que a mesma houvera sido descoberta e abafada pelo Governo Federal, essa ignorância decorrendo talvez da insuficiência dos parcos meios de comunicação, não hesitaram os monarquistas de Pinhal e Sertãozinho em fazer rebentar a revolta. Estourara, pois, a revolta, em caráter puramente local, passando seus cabecilhas a agir conseqüentemente, isto é, a praticar atos materiais de rebeldia contra a disciplina coletiva e republicana que reinava na localidade.
            Não há dúvida, portanto, que os acontecimentos desenrolados em Pinhal, naquele dramático mês de agosto de 1902, assumiram o caráter e a feição de verdadeira e original intentona sediciosa, sujeita a repressão de ordem política e social.
           
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            Em resumo: no histórico dia 23 de agosto de 1902, foi proclamada a monarquia em Pinhal!…
            No dia subseqüente, pela madrugada, a cidade foi invadida por grupos de homens armados, vindos, em grande parte, conforme foi apurado mais tarde, das bandas de Minas Gerais. Estes invasores desconhecidos depuseram as autoridades legais que dirigiam a localidade, apoderaram-se dos edifícios públicos mais importantes, ocuparam a estação ferroviária da Companhia Mogiana, passando a construir e organizar um governo local, de feição ostensivamente monarquista.
            O MM Juiz de Direito da Comarca, Dr. OTAVIO AFONSO DE MELO, foi, ao que dizem certos oráculos da tradição, embarcado no ultimo trem que seguia para Mogi Mirim. A respeito desta passagem histórica, o Dr. FRANCISCO ÁLVARES FLORENCE, em notas e comentários que compôs para este trabalho, escreve-nos textualmente:
            “Não é real. O Dr. Otavio Afonso de Melo, ficou detido em sua casa.”
            A essa categórica afirmação soma-se a observação que nos fez, caligrafada, o Dr. ABELARDO VERGUEIRO CÉSAR:
            “Se não é verdade corrija-se. A verdade acima de tudo.”
            Ainda no transcorrer daqueles turbulentos episodio extra-legais foi elevado a efeito um grande comício político, realizado defronte a Igreja Matriz, isto é, na praça mais pública, mais central e espaçosa da cidade. Nessa rumorosa oportunidade proferiu célebre e inflamado discurso o Dr. HADDOCK LOBO FILHO, medico possuidor de notável saber e de primorosa inteligência, cuja alma então efervescida de arrebatado monarquismo.
            Consta ainda, que outras autoridades locais resistiram a arbitraria ordem de deixar ou abandonar a cidade, sendo, em conseqüência, detidos no interior de suas próprias residências, permanecendo em exílio local ou tendo por ménage a própria casa. Aqui temos outro ponto para ser convenientemente elucidado, devendo serem anotadas com muito cuidado as informações prestadas pelos antigos moradores do lugar, os quais geralmente vivem da memória, essa cidade das tradições, como dizia MACHADO DE ASSIS…
            Vitoriosa a etapa preliminar da pequena revolução, providencias foram imediatamente tomadas no sentido de que a mesma prosseguisse em seus bélicos tramites, tais como oferecimentos de resistência armada e prática ou execução de outras ações militares. Todavia, a despeito dessas viris e enérgicas resoluções, apenas 36 horas, foi o período temporal em que Pinhal fora governado e administrado pelas normas do extinto regime monárquico. Assim breve e assim efêmera foi essa mudança de instituições, porque, sabedor o Governo do Estado das graves desordens e tropelias que ali desenrolavam, diligenciou incontinenti a remessa ou expedição de um adequado contingente de força armada para por-lhes fim, restabelecendo a ordem pública violada e garantindo a estabilidade nacional ameaçado. Suspensos na ponta desta difícil conjuntura, guindados ao ápice desta delicada emergência e só então tomando conhecimento de que, com exceção dos revolucionários de Ribeirãozinho, estavam agindo isoladamente, os subversores pinhalenses deliberaram encerrar o movimento sem opor a mínima resistência a tropa expedicionária estadual, que ali desembarcara…
            O Dr. ADOLFO GREEF BORBA, terceiro Promotor Público, em ordem cronológica, da Comarca de Pinhal, foi enviado a zona sediciosa, investido nos poderes de uma espécie de interventor municipal, representando e sendo figura de imediata confiança de BERNARDINO DE CAMPOS, Presidente do Estado, bem como de JOSÉ CARDOSO DE ALMEIDA, Chefe de Policia da Capital. A missão de que fora encarregado o ilustre órgão do Ministério Público de Pinhal consistia em impor a obidiencia a lei na cidade rebelde em restabelecer o respeito as autoridades constituídas, devolvendo-lhe a paz, a segurança e a tranqüilidade. Tais e tão elevados desideratos foram fielmente cumpridos, voltando a normalidade a cidade que fora rudemente abalada por sucessos e espetáculos intempestivos. É para notar-se, aqui, que o Dr. ADOLFO GREEF BORBA portara-se, no desempenho de sua espinhosa missão, com todo o cavalheirismo de que era dotado, agindo com grande elevação de animo e com escrupuloso respeito a dignidade de cada um.
            O Dr. ABELARDO CERQUEIRA CÉSAR, achando-se esse tempo em São Paulo, foi igualmente convocado pelo Governo do Estado afim de, na qualidade de pessoa profundamente conhecedora da região irritada, acompanhar a expedição militar que para ela havia sido enviada sob o comando do Primeiro Delegado Auxiliar da Capital, Dr. JOSÉ ROBERTO LEITE PENTEADO, que se fez assessorar pelo Dr. PAULO MACHADO FLORENCE, então Delegado de Policia de Campinas. Ao escolher o excelso vulto do Dr. ABELARDO CERQUEIRA CÉSAR, para o cumprimento dessa delicada e melindrosa tarefa, o Governo do Estado certamente teve em vista o gênio pacificador, o espírito da conciliação e o prestigio temperado de docilidade e harmonia, que tão ricamente ornavam a personalidade desse influente político e homem público. E realmente o acerto dessa escolha feliz logo fez-se notar; realmente no desempenho de sua árdua e penosa incumbência, o Dr. ABELARDO CERQUEIRA CÉSAR, procedeu com elevado critério e sentimento, atuou de modo honroso e apaziguador, agiu com prudência quase filosófica, mormente nos momentos cruciais que sucederam a sufocada revolta. A cordura inata, o sutil e delicado senso das circunstancias, os cristalinos apanágios morais desse nobre e ilustre cidadão influíram consideravelmente na atenuação e no abrandamento dos rigores repressivos, desencadeados pela administração do Estado contra os revoltosos. Foi nessa triste e áspera encruzilhada que o Dr. ABELARDO soube acalmar os ânimos ainda fermentados, semeando a concórdia e a amizade entre os desavindos, serenando e pacificando com brandura todos os antagonismos pessoais, culminando por trazer a paz e a harmonia ao seio da família pinhalense.
            Em suma: a tropa expedicionária, enviada pelo Governo do Estado a Pinhal, tinha dois destinos a cumprir: ou estrangular a revolta, com a aplicação da força, ou sufoca-la, com emprego dos meios suasórios. Os fatos posteriores vieram a demonstrar, como vimos, que preponderam os recursos da prudência e do coração, isto é, triunfou a missão civil, não tendo sido disparado um só tiro para que obtivesse a rendição incondicional dos revoltosos, os quais, de bom grado depuseram as armas, entregando-se ou dispersando-se a aproximação da expedição militar.
            Como estamos vendo, a pacificação da família pinhalense foi completa, no transcurso daqueles dias duros e difíceis. Tudo como que fora ouro sobre o azul. Todavia, é de crer que fatos desagradáveis podiam e deviam ter ocorrido, no desenlace do movimento cuja historia estamos sintetizando. Assim é que, por exemplo, tem-se mencionado como verdadeiro, como autentico fato de que, naquela ocasião, a chácara do sr. DAMASO TITO DA MOTA PAES, fora varejada e danificada, não ficando um só móvel intacto na casa em que lhe servia de sede. Seria este um ponto controversial, falto ou não de autenticidade histórica?…
            O certo é, porem, que nenhum tratamento cruel foi pessoalmente dispensado aos rebeldes; foram eles simplesmente presos e escoltados para a Capital do Estado, injunção esta exclusivamente imposta aos chefes e cabeças do movimento revolucionário, nada mais sucedendo ao restante numero de seus adeptos e simpatizantes. Presos e conduzidos a São Paulo foram então o Dr. HADDOCK LOBO FILHO, JOSÉ RIBEIRO DA MOTA, BARÃO DE MOTA PAES e Dr. CAROLINO FERREIRA DA SILVA, considerados como sendo os vultos centrais as figuras exponenciais da sedição. Pouco tempo mais tarde, não remanescendo motivo algum que justificasse a manutenção em custodias dessas ilustres personalidades, foram elas devolvidas a liberdade e ao convívio social.
            Revele-se agora, a titulo de curiosidade, em consonância com os informes da tradição oral a passagem em que fora protagonista principal o Dr. HADDOCK LOBO FILHO. Conta-se que ele, ao ser preso pelos legalistas, exclamara com bravura antiga, com audácia teatral:
            “— Eu sou monarquista!…”
 
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            Os anos correram após a deflagração desse curioso episodio revolucionário; e, a medida que o tempo ia transcorrendo, os monarquistas ou sebastianistas pinhalenses foram reconhecendo e se capacitando de que a monarquia não passa de uma forma de governo inteiramente divorciada das realidades nacionais, inteiramente incompatível com a índole dos povos americanos. Reconheceram  por fim, aqueles ferrenhos idolatras do passado, aqueles empedernidos conservadores, que a democracia e o regime federativo constituíam a única atmosfera sob a qual podia o Brasil viver, respirar e prosperar, crescer e progredir. Persuadiram-se, afinal, aqueles homens enamorados das dinastias infecundas, de que a Monarquia representa uma forma superada, retrograda e ultrapassada de governo das nações, compreendendo que o regime monárquico é um sistema político morto, fossilizado, completamente incapaz de se renovar a si mesmo. Organicamente convencidos do acerto dessas verdades fundamentais, aqueles pinhalenses de valor pessoal espontaneamente aderiram a República e aos supremos e formosos ideais que ela encarnava. Estava já a República definitivamente implantada e consolidada no país inteiro; e, como se tratava de homens de grande relevo individual, de homens de indiscutível destaque e prestigio social e político, muitos deles terminaram por prestar importantes e inestimáveis serviços a coletividade e a Nação, sentindo-se nobremente felizes e poderem servir a grande Pátria Brasileira.
            Esta é a pura verdade histórica: passados os acontecimentos de agosto de 1902, esquecidas àquelas horas de dolorosas apreensões cívicas, os Monarquistas pinhalenses desprezaram para sempre os restos mortais da Monarquia… Daí as palavras escritas pelo Dr. ABELARDINHO, no verso da folha 80 dos originais deste livro:
            “Meses, ou um ou dois anos depois os mesmos os mesmos que foram contrários e adversários da Revolução de 1902, patroeinaram a colocação do retrato de Armando Soares Caiuby no Club Recreativo Pinhalense, um dos principais chefes da Revolução.”
            Mais total esquecimento do passado não é possível… Tal fato demonstra claramente a alta concórdia, o sereno e superior espírito em que veio a se findar a singular e histórica rebelião pinhalense.
           
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            Já deixamos acentuadas as incalculáveis vantagens e benefícios advindos no Brasil, em conseqüência da queda da monarquia. Já assinalamos devidamente a forma pela qual essa mudança integral de ritmo político trouxe ao Brasil uma nova e vigorosa mobilidade de crescimento substantivo. Em virtude dessa profunda e improvisa transformação de estrutura política e social, que alterara situações que se acreditavam eternas, cessou o Brasil de ser a grande exceção americana, a solitária exceção continental, porquanto era ele o único país Imperial, a única nação monárquica no mapa do continente, não obstante jamais ter se revelado naquele colosso imperialista e repace, como o paranóico SOLANO LOPES havia velhacamente assoalhado no estrangeiro, fazendo-o com o perverso e mal dissimulado intento de grangear simpatia internacional e de elaborar previamente a justificação diplomática e moral da pérfida guerra que surdamente nos preparava, guerra que, afinal, emergindo dos fechados bastidores, nos declarou e nos moveu fatídico ano de 1864.
            O imperialismo intelectual francês e a influencia política inglesa e norte-americana constituem a essência ao mesmo tempo literária doutrinaria da propaganda pertinaz, da demolidora pregação revolucionaria republicana. Os políticos nacionais, os estadistas pátrios, a mocidade romântica e liberal do Brasil viviam encharcados de racionalismo, de enciclopedismo, de literatura revolucionaria, de contrato social; as instituições britânicas e yankees fascinavam, deslumbravam as gerações patrícias. Naquela época somente a sensibilidade era brasileira, a inteligência era francesa, como dissera JOAQUIM NABUCO, em famosa e feiticeira pagina de Minha Formação. No entanto, podemos garantir sem hesitar que o que derrubou o Império não foi o povo, não foi a opinião civil, foram o Exército e a Armada.
            O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, sem conhecer o que significava, sentenciava ARISTIDES LOBO, horas ante de ser nomeado Ministro do Interior do Governo Provisório. Quase ninguém sabia de nada. Nas Laranjeiras, não se fiava nos boatos insistentes de que o pronunciamento militar estava prestes a rebentar. O próprio Imperador naquele novembro histórico, veraneava tranqüilamente em Petrópolis, ignorando que o próprio Ministério sabia mal e mal. D. PEDRO II, a exemplo de NICOLAU, trazer da Rússia, nos trágicos e silenciosos dias que precederam a sanguinolenta irruação da revolução bolchevista, jazia positivamente tranqüilo e alheio aos surdos movimentos que se desenrolavam nas câmara subterrâneas do país. FLORIANO, na cúpula do Exército, e LADARIO a frente da Marinha, eram elementos de absoluta confiança do Rei. Contudo, os fados sombrios tramavam na sombra, porque o BARÃO DE LADARIO, por causa de sua cega obstinação monárquica, em virtude de sua extrema fidelidade a D. PEDRO II e ao regime iria, logo mais, ser alvejado a tiros…
            A República foi, na expressão de PEDRO CALMON, uma imensa surpresa, estourando no país como uma granada. É célebre a frase de um viajante inglês, que se encontrava no Rio de Janeiro naquela ocasião, narrando que um destaque de tilburi, em Londres, teria provocado maior alarido e maior sensação do que os decisivos acontecimentos do Campo de Santana, do que a Proclamação da República no Brasil. Realmente a Republica brasileira foi improvisada numa parada de soldados no Campo de Santana. Com exclusão da bela passeata militar e da garbosa formatura dos regimentos alinhados, comandados por DEODORO, o povo nada mais via de substancial no esplendor daquela quente e calma manhã carioca. O país acordou, no dizer de AFRÂNIO PEIXOTO, assustado e perplexo, entre um hábito antigo e uma moda nova. Mas acrescenta, ainda o mesmo distinto escritor, a proclamação da República nem mesmo foi parada vistosa: ameaça na sombra e capitulação apressada.
            O povo esse monstro de mil cabeças, no conceito de ENRICO FERRI, presenciou, tinto e pasmo, contemplou, com curiosidade plasmada, o natal da República. O povo não esperava assim rápida, o povo e o próprio partido republicano: tudo se passou em segredo, tudo era conhecido apenas por alguns círculos militares fechados, por algumas reservadas rodas civis. De tal arte que, apesar de ser, juntamente com a Independência e a Abolição da Escravatura, um dos mais altos picos de nossa cordilheira histórica, a República constituiu-se numa verdadeira antecipação, numa conquista imprevista e quase temporânea para a comunhão nacional.
            Dúvida não persiste, pois, de que a República foi uma antecipação, um acontecimento a bem dizer extemporâneo, encontrando a maior parte da população nacional desprevenida para recebe-la, compreende-la e saúda-la. E é por isso também que, dada a brusca transformação operada em nossas instituições políticas básicas, operação revolucionaria que em outros países da América Latina custara lutas ferozes, fizera correr rios de sangue, nem todos os brasileiros puderam aprender desde logo o exato e profundo significado dessa radical alteração da fisionomia institucional da nação, não logrando identificar-se prontamente com a sumaria eliminação de velhos e arraigados hábitos públicos, não conseguindo posse em sintonia com a violenta e súbita debelação de antigos e tradicionais costumes políticos, sentindo-se constrangidos e incapazes de aceitarem sem protestos a demolição de uma mentalidade social solidamente formada e alimentada através de muitos e muitos anos.
            Era imenso, no país, o numero de brasileiros que não se achavam ainda amadurecidos para viver sob o regime republicano. De ordinário, a República somente fora vista sendo implantada a ferro e fogo. Diz HERRERA que a América do Sul derramou torrentes de sangue em homenagem ao Contrato Social. A historia das lutas republicanas em Roma, antigamente a vida tormentosa de SIMÃO BOLIVIAR, o cavaleiro da gloria, as existências agitadas de MIRANDA Ó HIGGINS, SAN MARTIN, WASHINGTON e LAFAYETE, moderadamente, são demonstrações vivas e edificantes das porfias que se devem travar, das dificuldades que se devem vencer antes que se consiga implantar e consolidar instituições novas em qualquer região povoada do planeta.
            Assim, a insurreição monarquista, de que Pinhal foi teatro em 23 de agosto de 1902, constitui uma prova tangível e irrefragável de como é penoso e demorado, de como é sanguinolento mesmo, o processo de assimilação e de adaptação institucional num dado país; os tropeços, a lentidão no absorver e no compreender e interpretar o espírito da mudança de construção social e política, em face de sua repetição quase invariável através do tempo, chegam a constituir uma verdade da historia, ano uma lei histórica, mas um fenômeno histórico considerado inevitável.
            É verdade que a historia não se repete, no sentido próprio e rigoroso da palavra, mas os fenômenos históricos são muitos parecidos. Não se repetem mas se parecem. Por outro lado, o passado, embora não podendo voltar nunca, quando considerado em si mesmo, consegue contudo infiltrar-se nas conveniências do presente. Em certo aspecto, o passado é mesmo muito teimoso, buscando assomar e impor ao presente as suas visões particulares. Nesse fenômeno reside a força expansiva que galvanizou os revolucionários pinhalenses de 1902.
 
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            Desconheciam certamente os monarquista pinhalenses que biológica, social e politicamente a vida é uma renovação perene um perpetuo fieri, olvidavam sem dúvida que tudo muda incessantemente, que a mobilidade permanente é a condição da vida, que a decrepidez das formas sociais e políticas é um imperativo inelutável, que a formação de novas idéias e concepções é uma necessidade existencial para os indivíduos, povos, estados e nações. Ignoravam por certo, aqueles idealistas, que é perigoso e insensato conservar o que é antigo contra as novas imposições da vida social e política, defendendo interesses anacrônicos contra um interessa coletivo e atual, como com justeza proclamara KARL MAX no Discurso no Tribunal de Colônia.
            Um tradicionalismo mal compreendido, um instinto de conservação defeituosamente aplicado fez com que se achasse prestes a explodir, no organismo poderoso da República recém implantada, um movimento de descontentamento e rebeldia, um gânglio de rebelião e revolta uma grande ulcera sediciosa. Tal foi o que veio a suceder em Pinhal, em 1902, em um tempo, portanto, que se situava fora do período climatérico, fora do tormentoso e melindroso período constitucional da República cuja proclamação havia custado vinte anos de pregação e propaganda.
            Já em 04 de maio de 1896, em discurso pronunciado no banquete oferecido a FRANCISCO GLICÉRIO (jocosamente apelidado de general  das 21 brigadas), JULIO MESQUITA evidenciara que a República fazia desespero de uma minoria impenitente, e disposta a desmonta-la a todo o preço, fosse através da restauração da Monarquia ou fosse através da ocupação das oposições de responsabilidade, sem desdenhar dos próprios poderes políticos da nação. Neste trecho estão traçados com fidelidade os ideais que imantaram a eclosão da famosa revolta monarquista de Pinhal e do antigo Ribeirãozinho, revolta que, como já vimos precedentemente, terminou por se converter numa frustra tentativa de restaurar o principio dinástico no país, o qual deveria continuar vivendo sob o reinado pessoal de D. PEDRO II.
            Essa mazorca pinhalense (permitam-me a expressão, algo violenta e deprimente), articulada concomitantemente com a hoje cidade Taquaritinga, foi uma aventura revolucionaria idealizada e sustentada por misoneistas, por saudosistas do ancien régime. Esse plano, entretanto, foi vivamente repelido pela porção moça, avançada, construtiva e moderna da população local daquela época: a melhor parte da cidade vivia inteiramente emancipada dos prejuízos, dos preconceitos e princípios vigentes em um passado defunto, com o qual não mantinha nenhum compromisso de ordem moral, com o qual não se sentia presa de nenhum liame da natureza ideológica, com o qual não se vinculava pelos laços de nenhum parentesco lógico ou ideal.
            A chamada Revolução de Agosto, nada mais representa, na historia da civilização pinhalense, do que um débil e esporádico episodio de sebastianismo político, nada mais simboliza do que uma simples e gorada agitação reacionária, uma jornada insensata e despojada de idêntico idealismo revolucionário. Foi, aquele, quase um movimento de cavalheiros desocupados, como diria ÁLVARO LINS, desde o nascedouro condenada, por assim dizer, ao mais estrondoso insucesso, ao mais fragoroso fracasso. Já vimos, alias, que este fenômeno histórico reacionarismo social e político é bastante comum as nações e aos povos longamente dominados por este ou por aquele sistema de governo, por esta ou por aquela forma de organização social, eriçando-se ou pondo-se em antagonismo contra os que pretendem implantar inovações nessas estruturas fundamentais.
            Despido do verniz sentimental, isentos a afetividade, subtraídos a estima pessoal dedicada ao pacifico neto de MARCO AURÉLIO, ou seja, a magnânima e patriarcal figura de D. PEDRO II, que governara a nação durante quase meio século, pouco mais remanescia de elevado aos briosos inconfidentes pinhalenses. Está visto que os revoltosos pinhalenses amavam quase organicamente o absolutismo pessoal de D. PEDRO II, adoravam o humanismo bizantino e ingênuo do velho BRAGANÇA, candidamente considerado virtuoso com SÃO LUIZ e sábio como MARCO AURÉLIO. Os monarquistas de Pinhal almejavam afetuosamente a volta do honrado Patriarca, o retorno do bondoso Imperador, eram queremistas apaixonados, queriam a testa da nação o tranqüilo e quase meigo estudioso do retiro bucólico da Quinta da Boa Vista. Pensavam e agiam, por conseguinte, impelidos não por razoes políticas, econômicas ou sociais, mas por razoes naturalmente ternas e emocionais. Na verdade, tratava-se de um rei bastante digno de inspirar fervor e devoção; pessoalmente parecia ser o mais inatacável dos seres. Sobre este imperador que veio a morrer em Paris em 05 de dezembro de  1891, destacamos estas palavras severas e justas do grande jurisconsulto brasileiro PAULO DE LACERDA:
            No exílio nunca promoveu nem auxiliou qualquer tentativa contra o novo regime político; homem de raro cultivo intelectual e de experiência fora do comum, bem certo estava de que a forma republicana de governo era criação das forças incoercíveis ao ambiente social.
            O que passou em Pinhal foi, portanto, um episodio concebido e executado, não com as sugestões argutas e luminosas da razão, mas com as razoes turvadas e pueris do coração. Um movimento assim, apenas debochado pela decisão teórica dos espíritos, tinha que necessariamente que ser bastante semelhante, guardadas as devidas proporções, a celebre conjuração mineira, eclodida no país em 1789: conjuração ou conspiração elaborada e conduzida por vates ardentes, por criaturas líricas e prenhes de imaginação poética, movimento subversivo no qual não reluzia a lâmina de nenhuma espada, na qual se não vislumbrava nenhum vestígio de organização militar, na qual não se discernia nenhum lampejo de inteligência prática, nenhum esboço de plano estratégico tecnicamente traçado, permanecendo, pois essa revolução, necessariamente quimérica e irrealizável.
            Já que estamos pisando o terreno sedutor das comparações históricas, comparações que se não poderá intitular de aproximações bizarras e fúteis, reservamo-nos o direito da afirmar que essa verossimilhança pode ser estendida, mutatis mutandis, a outros diversos movimentos subversivos nacionais, tais como a Confederação do Equador (1817), ou a insurreição de BECKMANN (1784), revoltas estas que são, em certo sentido, irmãs gêmeas do insucesso trágico da malograda conspiração de Vila Rica; isto é, são revoltas realizadas sem clima filosófico prático, reações nativistas levadas a efeito sem fundamento cientifico, sem ideologia, sem mística, sem técnica, sem metafísica.
            Pinhal igualmente, em agosto de 1092, viveu um drama político exclusivamente romântico. Foi em seus motivos, métodos e finalidades, um movimento romântico de inconformistas desprovidos de recursos materiais; foi uma revolução sem armas, sem guerreiros, sem tropas de combate, o que equivale a dizer que foi uma revolução sue generis; foi uma revolução destituída de elementos suficientemente numerosos e coesos para enfrentar e remover obstáculos bélicos; foi uma sedição platônica, capitaneada por idealistas verbais, por descontentes teóricos, invencivelmente fadada portanto ao malogro, muito embora sendo de natureza generosa e espontânea, ainda que gestada nas raízes profundas e puras de uma centena de almas de elite.
            Entre a falange de rebeldes pinhalenses inexistiu propriamente um chefe, faltou a presença de um BENJAMIN CONSTANT, por exemplo, e que foi a alma da campanha republicana e da pregação revolucionaria que antecedeu e condicionou a conquista da República; inexistiu um líder, como FREI CANECA, o sublime mártir pernambucano; inexistiu um condottieri, um fuhrer, um personagem da altitude de TIRADENTES, o chefe moral dos inconfidentes mineiros, a lúgubre exceção da Inconfidência, na expressiva linguagem de PANDIA CALOGERAS, ou melhor, o único dos conspiradores montanheses a sofrer a pena capital, terminando sendo justiçado na forca com viril e admirável desassombro, acabando sendo imolado na forca por imposição da implacável justiça bragantina, estribada nos mesmos motivos pelos quais anteriormente mandara enforcar FELIPE DOS SANTOS.
            Revolta emocional de agosto, eis o verdadeiro nome que dever-se-ia dar a esse tentame revolucionário sem organização técnica a esse movimento sedicioso orientado por letrados e por velhos políticos da terra, supervisionando ineptamente por honrados burgueses e honestos chefes de família, por pacíficos abencerragens do monarquismo defunto. A própria benevolência empregada pelo Governo do Estado, enérgico mas sem dureza, ao fazer silenciar os insurgentes, ao impor submissão aos insurretos, demonstra a fraqueza técnica do movimento que fora obrigado a reprimir; a indulgência estatal evidencia, sem duvida alguma, a fragilidade estratégica daquela campanha, a debilidade militar daquele pseudo-revolução, na qual jamais se fez sentir a presença indispensável e decisiva do soldado. E foi com extrema facilidade que um modesto destacamento militar do Governo do Estadual estancou o sonho mirífico dos revoltosos pinhalenses, que vieram para a cena da historia apenas municiados com um grande equipamento teórico de entusiasmo e de vontade de vencer, nunca com uma vontade prática e com condições materiais para lutar e para pelejar vitoriosamente pelo ideal.
            Nenhum movimento desse tipo jamais poderá triunfar exclusivamente através do manejo da pena e do pensamento. A teoria, o livro as abstrações; o panfleto, o jornal, o radio, a tribuna, apenas podem ser estimulantes da luta armada, apenas só em despertar fé e entusiasmo pela causa, como justamente aconteceu durante a Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo; esses são os instrumentos da guerra dialética da guerra teórica, da guerra abstrata, da guerra intelectual, precursora e vivificadora da verdadeira guerra, a guerra ativa. Típico exemplo de que acabamos de afirmar vamos encontrar em ROSSEAU, cuja obra imortal introduziu uma nova pulsação no mundo: a publicação e a divulgação do Contrato Social e de sua demolidora filosofia política fixam nitidamente que a revolta intelectual engendrou a Revolução Francesa, de imensas ressonâncias em todo o mundo ocidental. Os prodromos desta grande revolução da historia da humanidade faz-nos intuir que todo movimento revolucionário é sempre precedido de um movimento filosófico, isto é, parte primeiramente do espírito para depois alcançar a ação direta e positiva. Primeiro a idéia, depois a ação, não se podendo deixar de notar que o pensamento é já meio ato, consoante nos ensina elementar noção de psicologia, esclarecendo-nos, que o efeito dinâmico da idéia vem da imagem que a acompanha.
            Seguindo esta diversa e ondulante ordem de considerações, vemos que a questão da escravatura, verbi gratia, teve a sua gênese histórica em uma simples tese de filosofia, sustentada denodadamente por alguns arrojados metafísicos e ideólogos audaciosos. Entretanto cumpre elucidar que das nuvens da teoria pura, dos ventos da fantasia, a generosa idéia abolicionista foi tomando vulto nos espíritos, foi ganhando vagarosamente a posse das consciências e dos corações, foi lentamente abrindo caminho entre as turvas e confusas correntes das massas populares, até transformar-se numa caudal que nada poderia conter ou deter. Pouco a pouco toda a opinião pública e privada do Brasil foi sendo arrastada e impressionada por esse idealismo ardente, que não temia em promover o complexo processo da escravidão, criando condições profundamente propícias e extremamente favoráveis a sua radical abolição. Esse fremente idealismo JOAQUIM NABUCO e JOSÉ DO PATROCÍNIO, entre outros, transportaram-no na magia e nos feitiços de uma eloqüência admirável; CASTRO ALVES celebrou-o condoreiramente nas asas e nos assomos de seus versos deslumbrantes e sublimes, consagrando-se para sempre como sendo o supremo e perene poeta dos escravos. SILVA JARDIM, ANDRÉ REBOUÇAS, QUINTINO BOCAIÚVA, RUI BARBOSA, aliaram-se imortalmente ao negro sublime, ao cognominado Tigre da Abolição, desfraldando com maravilhoso élan a bandeira do abolicionismo teórico e filosófico. A partir daí a idéia da libertação dos escravos estava plenamente amadurecida para ser posta em prática, para tornar-se em fulgurante realidade, o que realmente veio acontecer; triunfou por fim a nobilíssima causa da abolição, embora tivesse que vencer e transpor obstáculos temíveis e graves porque ninguém ignora que ela custou o trono do Brasil. O preço pago pela libertação dos escravos foi a queda da monarquia como sombria e profeticamente vaticinara a maior inteligência do Segundo Império, ou melhor ainda um paralelo de BRIAND, um dos homens de maior capacidade intelectual que até hoje apareceu na historia do Brasil: este gênio político outro não é senão o capacíssimo de clarividentíssimo JOÃO MAURICIO WANDERLEY, Barão de COTEGIPE. Não se dignou em ouvir-lhe o conselho; e por isso perdeu o trono…
            Como exemplo estrangeiro do que aqui vimos afiançado podemos depara-lo na historia dos Estados Unidos da América do Norte, onde a abolição da escravatura demandara quatro longos e porfiosos anos de tremenda guerra civil, culminando LINCOLN por objetiva-la em 1863, libertando então cerca de quatro milhões de escravos e unificando inteiramente as raças que povoam aquela nação riquíssima e poderosa. Pois bem, esse notável acontecimento histórico, esse acontecimento histórico de culminante relevo universal veio a patentear mais uma vez que no curso vário e perpetuo da historia, a idéia se revela sempre mais forte do que a froça das baionetas, embora sempre preceda a esta, seguindo-a como uma aia extremosa e fiel.
            Dom LUDGERO JASPERS o diz superiormente:
            “A historia do mundo é a historia de suas idéias”.
            E JOSÉ INGENIEROS o proclama lapidarmente:
            “As grandes revoluções se fazem com doutrinas de pensadores”.

® Ricardo Mateus Olivi - Nov/2007