A Linha Férrea Pinhalense

BONDES A VAPOR... inicialmente uma idéia para um meio de transporte para levar as produções agrícolas do município até São Paulo, Rio de Janeiro etc.
            Em fevereiro de 1886, capitalistas desta cidade pretenderam organizar uma companhia, para construção de uma estrada de ferro servida de bondes a vapor, que, partindo desta cidade para entroncar na estrada de ferro Mogiana.
            É verdade que, a idéia primitiva da estrada de bondes a vapor nesta cidade foi de leva-la à Estiva; formulou-se nesse sentido um orçamento das despesas e lucros prováveis.
            Em abril de 1886, foi sancionada uma Lei provincial concedendo a José Ribeiro da Motta Paes, Francisco Pinto da Fonseca, Vicente Gonçalves da Silva, Francisco Xavier Ribeiro, Francisco Antonio Rosas e José Antonio de Souza Brito, e a pessoas que melhores condições oferecessem, sem ônus algum para os cofres públicos, privilegio por cinqüenta anos, para, por si ou por meio de companhias que organizarem, estabelecerem uma linha de bondes de tração a vapor e segundo o sistema que for mais conveniente, partindo desta cidade e terminando na estação de Mogi-Guaçu, na linha Mogiana .
            A noticia sobre a sanção da Lei que concedeu privilegio a diversos cidadãos para a construção da linha de bondes desta cidade à Vila de Mogi-Guaçu, foi aqui recebida como se tratasse da nomeação de um inspetor de quarteirão! (responsável pela segurança na época).
            Era, motivo de grande regozijo para os pinhalenses, porque se a empresa levar a efeito esse melhoramento, vai o nosso município se tornar um dos mais importantes da Província.
            Em 26 de abril de 1886, realizou-se nesta cidade, uma reunião para ser instalada a Cia. Carris de Ferro Pinhalense. Tomou parte na discussão o Rev. Dr. Monte-Negro, Dr. José Vergueiro, tenente coronel José Ribeiro da Motta Paes e Francisco Antonio Rosas, seguindo-se a tomada de ações. Foram subscritas imediatamente 1.000 ações de 200$000 cada uma por diversos interessados.
            Nessa reunião foram nomeadas também algumas comissões para realizar o trabalho da incorporação da companhia, de acordo com as exigências da lei que rege a existência das sociedades anônimas e com o fim de angariarem novos acionistas. Foi indicada ainda nessa reunião a Casa Bancaria da Província de São Paulo, para nela ser recolhido o deposito que a lei exige, e aclamado presidente o Sr. tenente-coronel José Ribeiro da Motta Paes, que convidou para secretario o Sr. Francisco Antonio Rosas.
            Em setembro de 1886, o engenheiro Dr. Garcia Redondo, foi encarregado dos estudos preliminares da linha de bondes a vapor, que deve ligar esta cidade à estrada de ferro Mogiana, e em seu ponto de vista, a construção da estrada seria pouco dispendiosa, por causa da facilidade que proporcionam os terrenos que ela atravessaria, todos excelentes e em grande parte cultivados.
            Terminados os estudos sobre a linha ferra pinhalense, em 13 de outubro de 1886, foi fincado a estaca no lugar em que mais tarde iria edificar-se a estação, havendo um dia festivo para a população, não faltando musica, foguetes e discursos.
            Em fevereiro de 1887, o projeto realizado pelo Dr. Garcia Redondo, engenheiro encarregado desse trabalho, foi apresentado aos membros da comissão da companhia, o relatório da estrada de ferro, que ficaria com uma extensão de 38 Km e 760 metros, atravessando em quase todo seu percurso terrenos fertilíssimos e de grande cultura, a estrada terá a bitola de 1 m. entre os trilhos e custará apenas 600:000$000, incluindo nesta importância o custo do preparo do leito e superestrutura, obras de arte, estações e material rodante, e seu traçado passará pela colônia de Nova-Louzã, onde, em 08 de dezembro de 1887, o então engenheiro da Cia. Mogiana, Dr. Paula Souza, encarregado do ramal pinhalense, convidou o comendador Monte-Negro para bater a estaca que assinala o local onde vai ser construída a estação de Nova-Louzã, a primeira a ser construída nessa via-férrea, estação esta, que foi confirmada pelo Dr. Lisboa, engenheiro-chefe da Companhia Mogiana.
            A estaca referida tem em uma face a data – 1840-8-12, e em outra  face  a  data  1887-8-12.
            A primeira rememora o ano, dia e mês em que o fundador da Colônia de Nova-Louzã saiu da Vila de Louzã em Portugal, com destino ao Brasil.
            Em março de 1888, foi assinado contrato entre o presidente da Cia Mogiana, Dr. João Ataliba Nogueira, e o Governo Provincial, para que desse inicio aos trabalhos da construção do ramal pinhalense.
            Como estava previsto o inicio das obras após a assinatura do contrato, foi somente um ano após que deram-se inicio da construção do ramal, pois neste período, houve algumas divergências e exigências entre os proprietários de terras por onde a linha férrea passaria, tendo a comissão encarregada pela Cia Mogiana, a se entender com os proprietários dos terrenos, conseguindo assim, a compra de diversos desses imóveis, e perfazendo em 07 de abril de 1888, a marcação do local onde seria edificada a estação e o armazém, sendo esta edificação construída pelo empreiteiro Nicolau Rehder.
 
A INAUGURAÇÃO DO RAMAL PINHALENSE
             Houve preparativos para grandes festejos na inauguração do Ramal Férreo. A comissão dos festejos não pouparam esforços para desempenhar-se do grande encargo que tomou sobre si, sendo convidadas pessoas gradas da capital e da imprensa, para assistirem as festas.
 
           Abaixo, a reprodução da matéria publicada no jornal Diário de Campinas em 02/10/1889, sobre a inauguração da Linha Férrea em nossa cidade:
  
Campinas, 02.10.1889
 RAMAL PINHALENSE
— Inauguração —
            Partiu ontem desta cidade (Campinas), as 10,20 da manhã, o trem inaugural, levando o Dr. Gomide, engenheiro da Companhia Mogiana, no caráter de representante da «Gazeta de Campinas» e Henrique de Barcelos, do «Correio de Campinas» e mais convidados.
            Em Mogi-Mirim, reuniram-se ao trem inaugural dois carros de convidados vindo da Penha do Rio do Peixe (Itapira), os quais traziam também a banda de musica Ananias, recebendo novamente em Mogi-Guaçu grande numero de pessoas que se destinavam à mesma inauguração.
            Na estação de Nova-Louzã, que se achava vistosamente enfeitada, foi servido um café aos convidados.
            Ao chegar o trem, na estação do Espírito Santo do Pinhal, as 4 horas da tarde, subiu ao ar grande números de foguetes, cujo estrugido se misturava com as entusiásticas aclamações do povo.
            Quando o entusiasmo do povo serenou, o Sr. capitão Lucio da Motta Paes, em nome da Câmara Municipal, saudou calorosamente a Companhia Mogiana, engenheiro, empreiteiros e trabalhadores, congratulando-se ao mesmo tempo com o povo pinhalense por aquele adiantamento material que representava um grande passo no progresso daquela cidade.
            Essa saudação foi fervorosamente correspondida pela multidão.
            Em nome da Companhia Mogiana respondeu o Dr. Gomide, saudando o povo pinhalense e agradecendo ao mesmo tempo a saudação dirigida à Companhia Mogiana.
            Em seguida, o préstito acompanhado de duas bandas de musica, dirigiu-se ao Paço da Câmara Municipal, onde foi lavrada uma ata de congratulações com os munícipes e agradecimento a Companhia Mogiana pelo modo altamente atencioso com que acorreu aos desejos e aos interesses daquela próspera localidade.
            Usou da palavra, por essa ocasião, o distinto clinico Dr. Almeida Vergueiro, vereador da Câmara Municipal, saudando em nome desta, a Companhia Mogiana.
            Em seguida, orou o Dr. Felizardo Pinheiro de Campos Muller, em nome da colônia italiana, que se identificava com a alegria geral, saudando ao mesmo tempo a Companhia Mogiana, empreiteiros e os homens do trabalho.
            Depois desse ato oficial foram as pessoas presentes tomar parte num profuso copo-d´água (denominação dada antigamente aos aperitivos que eram oferecidos nas recepções), generosamente servido em casa do Sr. Barão da Motta Paes.
            Mais tarde, teve lugar em casa do Dr. Almeida Vergueiro um lauto banquete oferecido pela comissão dos festejos à diretoria, engenheiro da Cia. Mogiana, no qual tomou parte grande numero de convidados, trocando-se por essa ocasião calorosos brindes entre os cavalheiros presentes.
            Pelo Sr. Raposo foi levantado um brinde a Imprensa, representada pelo Sr. Henrique Barcellos, agradecendo esta a homenagem.
            À noite, foi a cidade iluminada a giorno, algumas casas embandeiradas, reinando grande animação.
            Com grande concurso de convidados, realizou-se animadíssimo baile naquela mesma casa, dançando-se até a madrugada, mostrando-se os promotores do baile extremamente afáveis para com as pessoas presentes, as quais se retiraram penhoradíssimas pela gentileza com que foram tratadas.
 
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            Por motivos independentes de nossa vontade, não pudemos, como era nosso ardente desejo, comparecer a essa festa de homenagem do povo pinhalense à Companhia Mogiana, mas daqui enviamos nossas congratulações a esse mesmo povo pelo agigantado passo que acaba de dar, e a Companhia Mogiana pelo modo pronto com que soube corresponder as elevadas aspirações daquela importante e próspera localidade.
 DIÁRIO DE CAMPINAS
 
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A primeira publicação do horário de trens, baixada pela Companhia Mogiana, 4 dias após a inauguração.
 
Horários de Trens
COMPANHIA MOGIANA RAMAL DO PINHAL
 
             Os trens E 1 e E 2 estão em comunicação com Santos nos dias úteis e com São Paulo nos dias Santificados.
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                Este dia foi histórico para nossa cidade, pois o progresso estava iniciando-se, os fazendeiros já podiam contar com um meio de transporte para despachar suas produções para exportação, e também um meio de locomoção das pessoas para cidades vizinhas.
Durante décadas, a linha férrea transportou as riquezas de nossa terra, pessoas ilustres como do Cardeal Dom Sebastião Leme, pessoas da comunidade, até que, no ano de 1961 foi extinta, acaba-se aí, o triunfo pinhalense. Os trilhos foram retirados somente em 1967.
Hoje, ainda existe marcas do passado pinhalense referente à linha férrea, a estação ferroviária da cidade, hoje, abrigando a cooperativa dos cafeicultores, a estação do Motta Paes, servindo como moradia para famílias rurícolas, referente a estação de Nova Louzã, hoje encontra-se totalmente descaracterizada e servindo como moradia.
 
Para finalizar, abaixo, um comentário de Ernesto Rizzoni, sobre a Linha Férrea Pinhalense, publicado no livro Nossa Terra Nossa Gente – Pinhal Historia em Noticia.
 
06.02.1960   DA REDAÇÃO
 BONDES A VAPOR
            Esta é a historia de um grande plano, realizado com tenacidade por um homem que, coadjuvado por outros igualmente munidos de elevado espírito publico, consegui em beneficio de nossa terra, provocar a corporificação de uma das mais velhas aspirações de nossa gente: a construção do ramal férreo pinhalense.
            Para o progresso de nossa terra e bem-estar de seu povo, na época em que se desenrolam estes acontecimentos, já não bastava o clima ameno e revigorante que beneficiava a cidade, construída sobre uma colina ao sopé dos contrafortes da Mantiqueira; não bastavam, a este povo sedento de progresso, as manadas e os rebanhos que percorriam os campos e que enriqueciam as fazendas; não bastava as ricas terras que possuía o município, alimentando com sua fertilidade a vida de milhões de cafeeiros, que em agosto engalanavam-se de brancas e odorantes e que em maio vergavam seus galhos ao peso de frutos vermelhos; não bastavam os arrozais que cobriam as vargens estendendo seu manto verde pela superfície das colinas; não bastavam em suma, infindos milharais que vicejavam nas terras lavradas e nas quebradas das serras, balouçando seus  pendões ao sopro da brisa vespertina.
            Realmente, esta riqueza era insuficiente para satisfazer um povo amante de progresso, um povo que desejava expandir cada vez mais suas atividades agrícolas e pastoris. Faltava-lhe transporte mais rápido e eficiente, para colocar nos portos de exportação suas grandes safras de café, afim de que o município não tivesse limitado seu desenvolvimento e não ficasse adstrito às contingências da distancia, das estradas e do tempo.
            O transporte, hoje não abundante, era deficientíssimo no século passado, bem como as estradas, verdadeiros caminhos de gado, intransitáveis na época das chuvas. A condução de nossa preciosa rubiácea era feita desta cidade às estações ferroviárias de Mato-Seco e Mogi-Guaçu, com grandes sacrifícios, por tropas de carros-de-boi.
            Corria o ano de 1886, 37° da fundação de Pinhal.
            A companhia Mogiana que, mercê da campanha movida pela imprensa pelo comendador Monte-Negro, sob o pseudônimo de «Julio d´Arouce», aquiescera em registrar no ano de 1875 o traçado de um ramal, que partindo da então Vila de Mogi-Guaçu fizesse ponto terminal nesta cidade, dele definitivamente se desinteressara por ter construído outro que, tendo inicio na mesma Vila, terminava em Poços de Caldas, nas lindes mineira, após atravessar Mato-Seco, Cascavel (hoje Aguai) e São João da Boa Vista.
            A decisão da Mogiana, preferindo o ramal de Poços de Caldas, era um travo para nossa expansão, era um fundo golpe as nossas mais caras ilusões de engrandecimento e de prosperidade; era, em sua suma, a morte de nosso progresso.
            Dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Este provérbio, no caso que tratamos, teve inteira aplicação no seu sentido mais lato, na sua mais lidima expressão, rejuvenescendo energias e levantando o animo da cidade que agonizava ao peso das dificuldades e da desesperança.
            Aconteceu que o cidadão Francisco Antonio Rosas (Seja para sempre lembrado seu nome!), teve uma feliz inspiração: se a Mogiana, apesar dos esforços despendidos, não atendera a justa aspiração do povo pinhalense, que esse povo, suprindo sua falta, construísse o ramal com seus próprios recursos!
            Francisco Antonio Rosas, procurando materializar sua idéia, obteve desde logo a cooperação do Barão da Motta Paes e de outros pinhalenses dignos, consegui a constituição de uma empresa denominada «Companhia Carris de Ferro Pinhalense», levantou o capital necessário, contratou engenheiros e trabalhadores para os estudos e serviços iniciais da ferrovia, que seria servida por bondes a vapor, e obteve a necessária concessão por decreto do poder executivo.
            A 13 de outubro de 1886, entre vias e aclamações populares, foi fincada em nossa cidade a estaca onde seria edificada a futura estação da Companhia Carris de Ferro Pinhalense, que utilizaria bondes a vapor para o exercício de suas atividades.
            O destino, todavia, nos seus insondáveis arcanos, tinha outros desígnios: não permitiria o trafego de bondes a vapor, mas sim de locomotivas a vapor, meio de transporte certamente mais seguro e mais rápido, e nem permitiria, em sentido objetivo, a constituição desta sociedade, que ficaria apenas na historia de nossa terra como um dos maiores exemplos da iniciativa e da fibra de nossa gente!
            Restava como ultima providencia a indispensável autorização governamental para o inicio dos trabalhos. Solicitada esta, o governo, com espanto de todos, indeferiu o pedido, sob a alegação de que a Mogiana possuía prioridade, pois registrara o traçado do ramal pinhalense em 1875. Informara,  todavia, que convidara a Mogiana a assinar o competente contrato.
            A Mogiana, em face dos estudos realizados pela novel companhia e em face das conclusões de seus próprios técnicos, assinou o contrato, dando inicio aos trabalhos da construção do ramal pinhalense, que foi finalmente inaugurado, com grande regozijo da população, a 30 de setembro de 1889, iniciando o transporte de cargas e de passageiros a 1° de outubro do mesmo ano.
            Não fora a luminosa idéia de Francisco Antonio Rosas, Pinhal não teria usufruído nos anos seguintes esse beneficio, grande fator de seu progresso. E certamente jamais usufruiria.
            Realmente, Deus escreve direito por linhas tortas.
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Fonte: Nossa Terra Nossa Gente - Pinhal Historia em Noticias, autor Ernesto Rizzoni

Atual Estação Ferrovia de Espirito Santo do Pinhal, SP