- ....|
- A Escravidão em Espírito Santo do Pinhal
-
-
No
século XIX, a escravidão era alastrada pelo
nosso país, em nossa cidade,
não era diferente, em um registro de 31 de março de 1887,
havia em nossa cidade, um pouco mais de 1.035 escravos de senhores
da sociedade de alto escalão como Capitães, Coronéis, Tenentes,
Barão, e entre outros.
-
Em artigos publicados no jornal Diário de Campinas no período
de 06 de janeiro de 1886 a 26 de dezembro de 1889, republicado em
1960 pelo sr. Ernesto Rizzoni, com o titulo “Nossa Terra Nossa
Gente, Pinhal Historia em Noticias”, neste livro, temos alguns
registros para entender melhor como foi a escravidão em nossa
cidade e a libertação em 16 de abril de 1888.
- Antes
de declarar os fatos ocorridos na época, esclarecemos um detalhe:
- Espírito
Santo do Pinhal, libertou os escravos em 16 de Abril de 1888,
tornando-se assim, o segundo local no Brasil a libertar os
escravos, sendo o primeiro o Ceará.
-
Os escravos aqui existentes, serviam a maioria nas lavouras
de café. Podemos descrever alguns fazendeiros, senhores de
escravos aqui existentes como, alferes Vitoriano Antonio Villas
Boas, Antonio Luiz Pereira, Barão da Motta Paes, Capitão Antonio
José Villas-Boas Sobrinho, Capitão Lucio Ribeiro da Motta, D.
José de Quevedo, Domingos Salvetti, Dr. José Vergueiro & Irmão,
Eduardo Teixeira, Firmino de Souza Moraes, Francisco das Chagas
Ribeiro, Francisco José Ferreira, Francisco Lopes Ribeiro,
Jacinto Elias do Amaral Pinto, João Xavier de Oliveira, José de
Freitas Guimarães, José Ribeiro de Oliveira Motta, Randolfo de
Freitas Guimarães, Tenente Vicente Gonçalves da Silva,
Tenente-Coronel Joaquim José de Almeida Vergueiro, entre outros.
-
Antes da libertação geral dos escravos em nosso município,
tivemos vários fatos ocorridos, como manumissões, revoltas entre
outros fatos.
-
Sobretudo, as intenções por parte das autoridades de
nosso município sobre o fato de libertar os cativos, teve como
pedra fundamental o Rev.Vigário Dr. José Daniel de Carvalho
Monte Negro, vigário de nossa paróquia, que no dia 19 de janeiro
de 1887, na sala da Câmara, ocupou-se em demonstrar a necessidade
da extinção da escravidão neste município, concluindo por
pedir a Câmara à criação de um Livro de Ouro, sendo esta idéia
abraçada pelo então presidente da Câmara, o Sr. Capitão Lucio
Ribeiro da Motta, que prometeu empregar todos os esforços para
que seja posta em pratica neste município.
-
Podemos considerar que, antes da intenção mencionada
acima, já havia algumas manumissões, os escravos aqui, para
serem alforriados, tinham que dar algo em troca, seria por
dinheiro, por serviços prestados e ou pelos dois.
- Abaixo,
estão descritos algumas das noticias de época sobre o assunto:
-
- 10/07/1886
–
Foi hoje libertada a escrava Venturosa, de 25 anos de idade,
contribuindo o Sr. Domingos Salvetti com a soma de 600$000 para
essa liberdade, sob a condição da manumissa prestar-lhe serviços
durante dois anos e meio.
-
- 13/11/1886
– O Sr. Firmino de Souza Moraes concedeu liberdade, segundo me
foi informado, sem ônus algum, a seu escravo Roque, que tratava
de obtê-la por meio de indenização. O ato do Sr. Firmino só
merece louvores.
-
- 31/12/1886
– No dia 25 realizou-se com regular concorrência, a audiência
especial para a libertação dos escravos classificados para esse
fim. Foram em numero de 8 que receberam as respectivas cartas.
Faltando a quantia de 12$116, para perfazer o preço da indenização
de um dos classificados, o Sr. Teodoro Franco promoveu uma subscrição
entre as pessoas presentes, e obteve aquela importância que foi
exibida em juízo como pecúlio do libertando, entrando assim
aquele infeliz no pleno gozo de sua liberdade.
- Aos
que concorreram para este ato tão meritório e filantrópico,
meus emboras, e ao Sr. Teodoro Franco um aperto de mão.
-
- 19/04/1887
–
Tendo sido arbitrado em 300$00 o valor da escrava Maria,
pertencente ao espolio do finado Francisco Vinhais, foi-lhe
passada a respectiva carta de liberdade e exibida aquela importância,
produto da subscrição aberta no dia da “inauguração da rua
José Bonifácio”.
-
- 14/10/1887
–
Foi declarada livre a escrava Ana, pertencente ao Sr. Jacinto
Elias do Amaral Pinto, mediante a indenização de 500$000, que a
manumissa pagou a seu ex-senhor.
-
-
Em fevereiro de 1888, demorando o Governo a tomar medidas
para a extinção do elemento servil, senhores de escravos tomaram
suas decisões. O Sr. Tenente-Coronel José Ribeiro da Motta Paes,
em sua fazenda, deliberou em marcar o dia 25 de março do corrente
ano para entregar a todos seus escravos, em numero superior de
100, as cartas de liberdade, e no fim do prazo daria uma gratificação
a todos e garantindo que, os escravos que continuarem na fazenda
teriam as mesmas regalias dos colonos estrangeiros, dentre os
presentes, estavam vizinhos da fazenda e também o capitão
Antonio José Villas Boas, capitão Lucio Ribeiro da Motta e
alferes Vitoriano Antonio Villas Boas que fizeram iguais declarações
aos escravos que possuíam. Com a presença do Rev. Vigário Monte
Negro, em um ato solene, celebra uma missa local e 28 casamentos
entre os escravos.
-
-
-
Em 25 de março de 1888, foram libertados
incondicionalmente 252 escravos dos seguintes senhores:
- Barão da Motta Paes............................................................
120
- (Tenente
José Ribeiro da Motta Paes, titulo de Barão em 10/03/1888)
- Tenente-coronel J. J. Almeida Vergueiro.................................
73
- Capitão Antonio Villas-Boas Sobrinho....................................
15
- Capitão Lucio Ribeiro da Motta..............................................
14
- Vitoriano Villas-Boas..............................................................
05
- Tenente Vicente Gonçalves da Silva........................................
10
- Dr. José Vergueiro & Irmão...................................................
15
-
-
As declarações dos libertos foram feitas pelos referidos
senhores na sala da Câmara, perante grande numero de pessoas ali
reunidas.
-
Durante a festa tocou em frente ao edifício da Câmara uma
banda de musica e a convite de seus ex-senhores, os libertos
percorreram algumas ruas da cidade com a banda de musica a frente,
sendo depois servido a todos um copo de cerveja.
-
Essa festa foi acompanhada de grande regozijo popular,
coincidindo com o aniversario da gloriosa libertação do Ceará.
-
Ficou, então, o dia 25 de Março, assinalado para o município,
porque nele se decidiu também a libertação dos escravos que
nele restam, sendo marcado o dia 10 de abril par a sua total
libertação, data esta que não ocorreu, pois a Comissão
Libertadora não havia concluído seus trabalhos, havendo então,
revoltas e fugas em massa de escravos do município, que muito
prejudicou as lavouras.
- Com
o descontrole sobre os escravos, dia 16 de abril de 1888, houve
então a libertação geral no município.
-
- Matéria
de época, publicada no “Jornal Diário de Campinas”,
sobre a libertação geral em nosso município:
-
- —
18.4.1888 LIBERTAÇÃO
GERAL —
- “Aguardei
a terminação das festas para enviar noticias desta cidade; fá-lo-ei,
porém, resumidamente, porque descrever quanto ocorreu seria
superior as minhas forças e também ao tempo que posso dispor.
- Como
disse na minha ultima carta, não se efetuaram no dia designado os
festejos pela libertação do município, por não ter ainda
Comissão concluído os seus trabalhos.
- Nos
dias 16 e 17 foram finalmente realizadas as festas que estiveram
esplendidas, havendo grande jubilo por parte da população.
- As
ruas foram adornadas com arcos e bandeiras, havendo em ambos os
dias passeatas com musica e iluminação à noite. Foram
proferidos muitos e entusiásticos discursos e ao Te Deum
que se realizou na tarde do segundo dia, concorreu muito povo,
assistindo também a Comissão Libertadora incorporada, a Câmara
Municipal representada pelo respectivo vice-presidente Dr. Almeida
Vergueiro, e empregados públicos.
- A
população inteira ficou tomada de entusiasmo e regozijo indiscutível,
vendo-se nos semblantes claramente expresso o contentamento que a
todos dominava por tão fausto motivo.
- Riscado
ficou o município do Espírito Santo do Pinhal do numero daqueles
em que geme o misero cativo. Aqui desapareceram escravos e
senhores, para haver somente cidadãos.
- Louvores
a quantos contribuíram e trabalharam para este resultado, que
tanto nos honra!
- Em
nome do «Diário de Campinas» usou da palavra na festa o Dr. José
Silvestre Machado Junior, que foi muito aplaudido.
- É
de notar que não se tivesse dado incidente algum que pudesse
desgostar os ex-senhores, nem houve qualquer reprovável excesso
durante as festas que as desvirtuasse ou amesquinhasse de alguma
forma, tornando-se digna por isso mesmo dos mais sinceros encômios
a Comissão Libertadora, que tão dignamente soube levar a termo a
gloriosa tarefa de que se incumbiu.
- A
todos esses beneméritos cidadãos envio um bravo entusiástico e
particularmente ao Sr. Ribeiro de Oliveira Motta que muito se
distinguiu, abandonando seus interesses e ocupações e
dedicando-se com ardor em auxiliar os seus companheiros de
trabalho e os míseros escravos que na manhã do próprio dia 17
romperam os quadrados das fazendas e o procuravam como a um
salvador.
- Parabéns
a todos e que a harmonia e o trabalho sejam sempre a divisa dos
que adquiriram a liberdade, abrindo nova era prospera e feliz para
este florescente município”.
-
- Os
efeitos após a libertação geral em nosso município, ocasionou
a vadiação e alguns atos de violência de ex-escravos na cidade,
tendo os fazendeiros os seus cafezais enterrados no mato por falta
de mão de obra. Com o passar do tempo, alguns ex-escravos foram
trabalhar nas lavouras, como empregados, gozando de direitos dos
demais rurícolas, e com o passar dos anos, muitos imigrantes aqui
chegaram, juntando-se aos demais aqui existentes para que a
agricultura, continuasse a progredir.
- Assim,
fica registrado para a historia de Espírito Santo do Pinhal, um
fato, um acontecimento, que não podemos deixar passar em branco.
Pois aqueles, que no presente aprendem com o passado, faz um
futuro melhor.
-
- ---------------------
§ ---------------------
- HISTORIAS
DO BIÉ
- (ESCRITO
CONFORME O SEU MODO DE FALAR)
-
-
Gabriel, o escravo do Justino, que tem o apelido de Bié, há
dias alforriado, traz no corpo alquebrado os sinais das flagelações
recebidas dos seus antigos senhores, mas é bastante jovial e dá
gosto de ouvir sua palestra, as vezes cheia de filosofia e sempre
vazada na linguagem simples e pitoresca das almas simples.
-
Gosto de ouvir o preto velho, roubado, ainda menino, as
selvas natais, para uma vida de dores e aflições nas terras
virgens de uma nova, rica e imensurável pátria!
-
Suas historias refletem as agruras e privações da gente
africana nestas terras do Novo Mundo, aqui transportada no
tombadilho dos veleiros e nos porões de navios infectos, sob
pesadas correntes, ao guante de desalmados capitães de aventura!
-
— São Cristo, sinhô – é a sua saudação, que traduz
a humildade daqueles que por largos anos receberam no dorso nu de
ébano o látego dos feitores, nos engenhos e nos cafezais, esse símbolo
infamante da mais sacrificada, da mais humilhada raça!
-
Ouçamos suas historias:
-
— «Vancê num pode maginá u qui sufria us pobre cativo
nas fazenda de café. Quando iêu era cativo do coroné Freita,
tinha lá um nego andava sempre duente, num podendo mais co´o
serviço do eito.
-
A graça dele era Bastião. O Bastião um dia arresolveu
fugi, pruque num agüentava mais us trato do feitô, un home feio
e troncudo que andava sempre co´um tala na mão.
-
U´a noite ele fugiu. No outro dia tudo nóis cativo co´o
feitô na frente o percuremo como que percura agúia, mais quá!
Num achemo o canhembora. Tinha sumido.
-
Mais sinhô moço, um dia o feitô adiscubriu ele que tava
escondido nas mata da fazenda do seu Joaquim.
-
Coitado daquele nêgo!
-
O feito escoieu quatro nêgo mais sacudido da fazenda e
levaro ele no paió. Lá na frente de seo coroné, cada preto co´um
bambu lascado, dero tanto nas costa do Bastião até ele morrê.
-
Era de tarde quando fumo interrá ele na grota, debaixo dos
pé de café carregado de fruita vermeia…»
-
-
-
- HISTORIAS
DO BIÉ
- (ESCRITO
CONFORME O SEU MODO DE FALAR)
-
-
— São Cristo, sinhô – disse-me a guisa de saudação
o negro Bié, quando cheguei logo após a abolição da
escravatura, numa manhã radiante de sol, à sua cabana.
-
— Parabéns, Gabriel – fui dizendo – afinal raiou a
aurora da liberdade. Graças a Deus, o Brasil libertou-se da
mancha infamante da escravidão e brancos e negros podem hoje
apertar-se as mãos na esperança de um mundo melhor.
-
— Quá, patrão – respondeu – u sór dus cativo é
frio cumo a giada qui branquece as varge nas madrugada de junho.
-
Nóis semo cumo a erva seca qui u frio queimô.
-
A terra nossa, terra do sor, ficô lá longe, nossa família
sumiu, tudo ta morto, tamém nosso coração ta defunto.
-
Meu veio era um nego forte i sacudido quano pisô estas
terras di Nosso Sinhô.
-
Dispois di un tempão di sufrimento, marrado aus tronco i
cum corrente nus pés, sua arma dele si dispidiu.
-
Judei fecha os zóio dele quano morreu.
-
A sodade rói aqui dento quando si alembro do meu veio.
-
Minha mãe, nega mina, tamém sumiu dispois di dois anos
qui ieu nasci.
-
Nas senzala, nas noite de luá, meu véio sentia sôdade di
sua terra dele, a sua terra di fogo, cumo ele dizia, e quiria vortá
pra vê as matabele in frô, iscuitá us pio dos passarinho i inté
gozá u baruio dus lião nas mata du Congo quano manhecia.
-
Quá, patrão, us cativo num tem país.
-
A sodade hadi mordê us coração dele inté quano fô
pinchado inrolado na rede nu buraco escuro do cemitério.
-
Aí intão nóis cativo ficamo mêmo liberto, pruque vamo
pra casa di Nosso Sinhô cumpri nosso distino, pruque a arma num
tem có i Deus é grandi i bao! —
-
Sai comovido da cabana de Gabriel. Compreendi que nossos
pretos muito embrora tenham adquirido a liberdade, há muito
perderam todas as esperanças, tais os sofrimentos que suportaram,
tais as humilhações a que foram submetidos desde quando foram
arrancados as selvas africanas, chorados por aqueles que lá
ficaram.
-
As gerações futuras talvez venham a perder as recordações
destes tempos inenarráveis ou consigam reagir a essas reminiscências
dolorosas, irmanando-se com os brancos em beneficio da grandeza de
nossa pátria, sob o sol da liberdade.
-
- --------------------- §
---------------------