Cardeal Dom Sebastião Leme

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O Cardinalato de Dom Sebastião Leme.
 
            Em 18 de abril de 1930, o Cardeal ARCOVERDE, vem a falecer, sucedendo-lhe no sólido e Episcopal, como era de direito Dom SEBASTIÃO LEME. Dom LEME, era sucessor natural do ilustre falecido, atingindo, dessa forma, a mais alta culminância de sua gloriosa carreira.
            Em 5 de junho de 1930 foi recebida no Rio de Janeiro, entre justas manifestações de jubilo, a noticia de que Dom Sebastião Leme, arcebispo dessa arquiocese, fora escolhido para o cardinalato. A comunicação oficial, ainda sob segredo pontifício, fora transmitida na véspera, data da sagração episcopal de Dom Sebastião Leme, por sua excia. o sr. Dom Bento Aloisi Masella, núncio apostólico no Brasil.
            Não é preciso frisar o contentamento que todo o povo do Brasil recebeu esse ato de Pio XI. Toda a imprensa, sem distinção de cores políticas, se manifestou orgulhosa com mais esta altíssima prova de predileção do papa ao nosso país.
            O “Jornal do Comercio”, por exemplo, assim se exprimiu:
            Dom Sebastião Leme, sua santa missão religiosa, cumprindo os seus deveres de sacerdote que tem objetivo moral acima das pequeninas coisas da terra, não esquece também seus deveres de patriota e de brasileiro, e é tão sincero sacerdote como devotado concidadão.
            Todos os brasileiros registram a significação desse ato da Santa Sé e o valor político, social e internacional de continuarmos a ter um grande bispo brasileiro no Sacro Colégio. Por outro lado, como brasileiros consideramos justa compensação ao sentimento católico da nação conservamos o cardeal sul-americano e como habitantes desta arquiocese nos rejubilamos que continue a ser o arcebispo do Rio de Janeiro o cardeal do Brasil e da América do Sul, tanto mais quanto para nós outros esta escolha nos sensibiliza o coração e nos emociona, pois Dom Sebastião Leme tem em cada um de nós um admirador sincero, um entusiasta dedicado e um fiel praticante de seus conselhos.
            Como brasileiros, não olvidamos o alcance político da justa deliberação de Sua Santidade. Como católicos, não esquecemos a compensação e o conforto que é para todos a justiça de termos representante no Sacro Colégio. Mas como habitantes do Rio agradecemos Sua Santidade a escolha, para suceder a Dom Joaquim Arcoverde, do arcebispo cheio de sinceridade e de bondosas intenções, que só tem amigos e admiradores e que tem prestado os maiores serviços ao catolicismo no Brasil e no Rio de Janeiro, sendo como é não só um exemplo de virtudes como um organizador que vence pelo carinho e pela sabedoria.
 
Recebe em Roma o Chapéu Cardinalício
            Criado cardeal a 30 de junho de 1930, no dia 02 de julho era imposto o barrete cardinalício a Dom Sebastião Leme, na Cidade do Vaticano, e, a 3 de julho, recebia o chapéu cardinalício.
            Foi o seguinte discurso que o novo cardeal brasileiro proferiu, em Roma, em seu nome e no dos demais cardeais então criados, saudando a sua Santidade o Papa:
            Não foram as razoes elevadas da praxe que confia a um dos cardeais o honroso cargo de agradecer, de público, a vossa santidade, a mercê insigne, que em sua soberana munificência nos fez, e eu teria preferido recitar baixinho, junto dos altares a prece da nossa comovida gratidão.
            Orar pelo beatíssimo padre, tão fervorosamente quanto nos permite a humana fraqueza, foi sempre uma doce necessidade de nossas almas. Faziam-lo, antes, por espírito de fé, amor filial e adesão completa e inquebrantável ao Vigário de Jesus Cristo como ainda pela santa ufania de vermos a autoridade de Pedro concretizada em uma das mais altas e mais vivas demonstrações de sobrenatural ação, que tem glorificado, através dos séculos, a historia do pontificado romano.
            De hoje em diante, se é possível, mais ainda que pelo passado, movidos por nossos impulsos de irresistível gratidão, o nome de vossa santidade viverá sempre em nossas preces. A nossa confusão, beatíssimo padre, pela honra excelsa da púrpura, equivalente a gloria que intimamente sentimos pelo fato de a recebermos das mãos augustas do Papa que, empenhado na dilatação intensiva e extensiva da paz de Cristo, no reinado de Cristo, não só tem levado o evangelho a todos os países e regiões de infiéis, como ainda o tem afirmado, com voz alta e forte, para ser ouvida por quantos, dentro da própria civilização Cristã, haviam esquecido individual e socialmente os deveres para com a suprema realeza de Cristo. Grande é, pois, a nossa consolação; menor, porém, não é a responsabilidade de entrarmos para o Sacro Colégio, criaturas do pontífice que, vivendo e irradiando uma fé consciente e inabalável na missão divina da barca de Pedro, sabe ver e sabe querer. E, porque, assim é, o seu nome histórico avulta diante da admiração da humanidade, como mais tarde, nos anais do nosso século, ficará como um símbolo magnífico de personalidade nesta época de tibieza e afrouxamento de vontades e consciências.
            Tais são as expansões que, neste dia, vigília da festa do Coração Eucarístico de Jesus, fazemos subir aos céus, como penhor do nosso reconhecimento sincero; e agora, ao depor aos pés de vossa santidade o osculo em que renovamos, de modo solene, a nossa devoção inviolável à autoridade e a pessoa do Sumo Pontífice gloriosamente reinante, licito me seja, beatíssimo padre, uma palavra apenas para frisar os sentimentos de gratidão, obediência e amor da minha pátria, profundamente sensibilizada pela graça e honra que lhe fez vossa santidade concedendo pela segunda vez a púrpura cardinalícia a um de seus humildes filhos.
            O Brasil, o povo católico e devotado ao Papa, como os que mais o sejam, todo ele está, nesta hora de vibração nacional, voltado para Roma, num grito unânime de fé católica, apostólica, romana, grito ardente como o nosso sol dos trópicos. E não fosse a distância dos mares e estreiteza do tempo, milhares de compatriotas meus viriam hoje ajoelhar-se aos pés de vossa santidade, juntamente com os novos cardeais, suas famílias e amigos aqui presentes, para exprimirem e amor filiaes.
            Com renovações de tais sentimentos íntimos, os novos cardeais querem renovar, também, o voto solene que não é deles somente, porque sai do peito de toda a cristandade, pedindo a Deus pela vida e gloria do pontífice que se extenua em esforços abnegados pela realização do ideal santo de levar a paz de Cristo ao mundo inteiro, e trazer o mundo inteiro à honra, ao dever e a felicidade de submeter-se ao reinado de Cristo”.
           
        A elevação de Dom Sebastião Leme ao cardinalato, se encheu de regozijo a todo o povo brasileiro, e de ufania ao nosso próprio governo, não deixou de chamar atenção dos demais povos para o nosso país e para a grande figura do arcebispo do Rio de Janeiro, que, de 1930 para cá, deixou de ser apenas um nome nacional para ser considerado uma figura de altíssimo relevo internacional.
            A imposição do chapéu cardinalício a s. em. veio coroar uma vida inteira votada as causas mais nobres e mais respeitáveis, como são a da Igreja e da pátria, amores que sua eminência harmoniza, entrelaça e apura.
           
            Óbolo ao Papa
            Prova evidente da imensa satisfação que experimentaram os brasileiros com a elevação  ao cardinalato do nosso querido arcebispo, logo após o falecimento do cardeal Arcoverde, foi o movimento, iniciado no Rio, que se propagou por todo o Brasil, para a oferta de um generoso óbolo ao Papa, que tão paternalmente vinha ao encontro desta grande aspiração nacional, ver a Dom Sebastião cardeal da Santa Igreja.
            Em pouco mais de um mês, conseguiram os católicos brasileiros meio milhão de liras, que, enviadas a Roma , foram entregues a sua santidade pelo novo porpurado, na visita de despedidas, antes de deixar a cidade eterna. Para o óbolo contribuíram não só os srs. arcebispos e bispos, mas também os próprios governos estaduais da República. Ao movimento de caráter nacional, deu todo o prestigio o sr. Ministro das Relações Exteriores dr. Octavio Mangabeira.
 
 
O regresso do Cardeal Leme
            A bordo do vapor italiano “Duílio”, era esperado nesta capital, no dia 19 de outubro de 1930, o novo cardeal do Brasil.
          Sua recepção, que, noutras circunstancias, haveria de constituir o maior acontecimento do ano, foi o seu tanto prejudicada, por acontecimentos outros, que não queremos rememorar. Todavia, é preciso que se diga que o nosso cardeal-arcebispo foi aqui recebido, como verdadeiro mensageiro de paz…
            E não desmentiu a confiança do seu povo.
            É muito cedo ainda para se escrever a historia da revolução política de 1930. um dia, porém, ela há de ser contada, sem paixão. Aparecerá, então, entre os que mais trabalharam para o restabelecimento da paz, dentro da lei, a figura grandiosa do cardeal Leme, como um dos maiores brasileiros e defensores da própria nacionalidade.
            Este o sentir dos católicos do Rio de Janeiro, se já não é o julgamento antecipado dos que assistiram ao desfecho da revolução outubrista.
 
 
 
 
A Sua Eminência
- Recordação -
“Il fiero lauro cresce tra la spada imperiale e la tiara pontificia”.
            Justamente na tarde de 03 de julho de 1930, dia da festa do Coração Eucarístico de Jesus, Roma estava iluminada pelo sol de estio, dardejando seus raios sobre as cúpulas douradas e brancas dos monumentos milenares que as sete colinas contornam.
            O céu azul-turquesa, o mais azul de todos os céus, curvavam-se, abraçando a cidade eterna, como um manto cinzelado pelas mãos divinas de Raphael.
            A Cidade da Alma, no dizer poético de Byron, engalanara-se de flores rutilantes, em homenagem a mais uma gloria do Senhor.
            Nessa tarde radiante, no palácio Vaticano, Dom Sebastião Leme, o prelado brasileiro de virtudes excelsas, receberia das mãos do Santo Padre a púrpura cardinalícia.
            O Vaticano resplandecia. A guarda suíça estendia de um lado e outro da escadaria de mármore branco que leva as salas suntuosas do Vaticano onde Miguel Ângelo e Raphael, Perugino e Botticelli, Ghiriandaio e Signorelli, reuniram com o pincel do gênio, todo o esplendor da arte clássica e toda a austeridade da tradição cristã.
            Dom Sebastião Leme estava visivelmente comovido, certamente mais de quantos assistíamos pela primeira vez a tão solene e grandioso espetáculo.
            O Sacro Colégio, todo o Corpo Diplomático e grande numero de convidados, fardas reluzentes, condecorações fulgurantes, espadas retinindo nos mosaicos maravilhosos, enchiam a sala da Segnatura, onde Raphael pintou a Disputa do Sacramento, a Escola de Athenas e o Parnaso, as três maiores potencias educadoras da humanidade: a Religião de Cristo, a Sciencia e a Poesia.
            Sentados e em pé, esperávamos todos a entrada solene de Pio XI.
            Do fundo do salão, vindo de outro, assoma a figura do Sumo Pontífice, que se dirige a poltrona dourada e simbólica de São Pedro.
            A sua fisionomia suave, o seu porte pequeno mas severo, os seus olhos azuis, refletiam uma bondade evangélica, ao baixar sobre todos os presentes, um olhar lânguido de profundo amor.
            Um frêmito de admiração perpassa pelo ambiente fulgurante de cores e a cerimônia começa simples e austera,  solene e majestosa.
            A púrpura cardinalícia cai sobre um por um dos cinco arcebispos, se não me falha a memória, que, naquele dia indelével, recebiam das mãos do vigário de Cristo a investidura dignificante do cardinalato.
            Dom Sebastião Leme, porém, destacou-se dos outros, porque a ele fora imposta a missão de ser o interprete eloqüente dos seus pares.
            Erguendo-se da sua cadeira, com passo firme, fixo o olhar no Sumo Pontífice, aproxima-se e começa a ler a sua oração.
            Em puríssimo florentino com acento romano, o cardeal Leme, encheu o salão de palavras repassadas de suave humildade em face da bondade de Pio XI, que, em nome de Cristo, lhe concedera a honra e a gloria de tão altíssima dignidade.
            Após o verbo quente de um filho dos trópicos, deste Brasil imenso e bom, pelo qual o coração brasileiro pulsava de orgulho ao contempla aquele acontecimento inesquecível, todos nos erguemos, e, acompanhando o Papa, passamos a capela Paulina, onde Pio XI disse missa votiva e deu a bênção a todos os presentes.
            A consagração de Dom Leme como príncipe da Igreja Católica Romana, refletia-se na imagem do Brasil longínquo, que ele invocara cheio de fé nos seus grandes destinos, prometendo como pastor dileto do seu enorme rebanho, conduzi-lo e defende-lo das trevas da impiedade.
            Que me perdoe o eminente cardeal Leme, se não fui verdadeiro e minucioso na evocação daquele dia de julho de 1930, no qual meu coração bateu em ritmos desordenados pelas emoções sucessivas de tanto esplendor e de tanta gloria, que eram também o esplendor e a gloria do nosso Brasil.
            Saí atônito do indescritível palácio Vaticano, trazendo nas retinas estampadas a majestade e o fulgor daquela cerimônia gloriosa.
 
            Finalizando:
            O Eminentíssimo porpurado patrício, investido em altíssima dignidade da Igreja, pode então realizar os mais árduos e proveitosos trabalhos em prol da Igreja e da Pátria Brasileira, completando a obra magnífica que houvera iniciado como Arcebispo-auxiliar. Dom LEME tornou-se Cardeal da Santa Igreja em 3 de Julho de 1930, quando em Roma recebeu a PÚRPURA CARDINALÍCIA das mãos do Papa PIO XI.
            Os trabalhos e obras executados por Dom LEME durante a sua gestão como Cardeal do Brasil foi de 1930 a 1942, ano de sua morte. Figuram entre elas a criação da Coligação Católica Brasileira a reabertura do Seminário de São José ou Rio Comprido que funcionava em Paquetá, a obra Adoração Perpetua, o Monumento a Cristo Redentor no alto do Corcovado no Rio de Janeiro.
Muitas outras iniciativas de grande valor foram realizadas pelo Cardeal Leme, que se projetava como legitimo orgulho de todo Brasil, firmando-se como alta figura internacional.
            O nosso Cardeal não era um cerebral a vagar pelos campos infinitos do pensamento Cristão, um doutrinista gracial e árdio, mas um exemplar vivo de cristianismo social, militante e pratico. Possuía um senso profundo das realidades, possuía visada pratica e realista de todos os problemas da Igreja.       
            Desdobrava-se magnificamente, como um homem empreendedor e ativo. Seu pensamento era avançado, não se alheava da realidade com meditações e analises de filosofo da Igreja, de teórico do Catolicismo. Se fosse meramente teórico ou especulativo, sua vida não deixaria de ser nobre e bela, contudo não teria objetivo como o curso das estrelas ou a rotação da Terra. Sua existência não deixaria de ter grandeza, mas seria parada e monótona como o mar.

@ Por: Ricardo Mateus Olivi - Agosto 2007®